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REVISTA DO VILLA

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Crítica: A Odisseia e o herói que chora

Por Cláudia Felício, autora best-seller, roteirista e crítica especializada em cinema

Há tempos, eu não via um filme tão bom! Christopher Nolan marcou um golaço quando entendeu que adaptar Homero não significava reproduzir a Odisseia, mas dialogar com ela. 


"Odisseia" - Universal Pictures
"Odisseia" - Universal Pictures

Nós estamos acostumado aos heróis americanos que escondem as emoções por baixo de uma armadura, em

“A Odisseia”, o espectador encontra um protagonista muito diferente. O Odisseu de Nolan chora, chora de saudade da esposa e de sua terra natal, Ítaca.

E essa talvez seja uma das maiores fidelidades ao poema, o herói grego nunca teve vergonha das lágrimas. Na cultura homérica, sofrer não diminuía o guerreiro; muito pelo contrário revelava sua humanidade.


Até os deuses choravam, quando Aquiles morre nessa mesma guerra de Tróia, sua mãe, a deusa Tétis chora. Aliás, falando sobre deusas, a cena de Circe é incrível! A atriz, Samantha Morton, faz uma cena brutal, mas com um domínio impressionante; que sequência maravilhosa. 


Nolan teve uma sacada bacana, ele atualizou a jornada do herói para o século XXI.

Na Odisseia original de Homero, O Odisseu é um homem disposto a sacrificar tudo e todos para voltar para casa e essas decisões nunca são acompanhadas de culpa. 

Em Nolan, essa mesma vontade vem acompanhada pela culpa e pelo remorso, como se o herói precisasse justificar cada uma das decisões. Senti que essa era uma adaptação necessária para um público do século XXI, cuja visão moral difere (e muito) dos valores guerreiros da Grécia homérica.


"Odisseia" - Universal Pictures
"Odisseia" - Universal Pictures

Outra diferença importante está na estrutura da narrativa que eu, particularmente, amei!

Em Homero, Odisseu relata suas aventuras aos feácios. Nolan altera esse eixo dramático e faz com que as lembranças sejam reconstruídas na ilha de Calipso, interpretada por Charlize Theron, lindíssima, aliás.

Como já havia feito em Oppenheimer, Nolan troca uma narrativa pública por uma experiência psicológica e subjetiva contada a um outro personagem. Ao fazer Odisseu conversar com Calipso, ele aproxima o espectador do protagonista e constrói uma intimidade que dialoga melhor com o cinema contemporâneo. É uma narrativa fragmentada, o que me agrada, tanto que a guerra de Tróia só aparece no final do filme.


"Odisseia" - Universal Pictures
"Odisseia" - Universal Pictures

Senti falta, porém, do inesquecível episódio do Ciclope. Ao perguntar quem o havia cegado, Polifemo ouve de Odisseu uma resposta genial: “Ninguém”. Quando pede socorro dizendo que “ninguém” o feriu, os outros ciclopes o abandonam. A ausência dessa cena elimina um dos momentos mais inteligentes e bem-humorados de toda a literatura ocidental, na minha modesta opinião.


"Odisseia" - Universal Pictures
"Odisseia" - Universal Pictures

Visualmente, o filme é deslumbrante. É cada cenário que a vontade é sair do cinema e comprar uma passagem para a Grécia urgentemente! A direção de arte recria o Mediterrâneo mítico e Matt Damon entrega um Odisseu intenso, mas vulnerável. Já Zendaya, como Atena, funciona como o “grilo falante” do protagonista, a voz da consciência que contrapõe a astúcia de Odisseu ao senso de justiça.

E a solução encontrada por Nolan para a participação de Zendaya como Atena no desfecho é simplesmente brilhante.


"Odisseia" - Universal Pictures
"Odisseia" - Universal Pictures

Nolan não substitui Homero, ele traduz a Odisseia para o nosso tempo.

E talvez esse seja o maior mérito do filme: lembrar que, passados quase três mil anos, continuamos fascinados por um herói que vence menos pela força e mais pela inteligência, pela determinação e, principalmente, que nunca teve vergonha de ser humano.



Claudia Felicio


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