Pedro Ramos continua sua viagem pelo Oriente: Viajar para Desaprender
- Pedro Ramos

- 25 de jun.
- 3 min de leitura
Uma certeza desconfortável: experiência não nos imuniza contra a necessidade de desaprender.

Numa das minhas últimas crónicas, escrevi sobre a importância de aprender a desaprender como processo atual necessário para os lideres e liderados; um processo altamente exigente de desmontar certezas para voltar a construir conhecimento com mais consciência e de forma mais sustentada.
Hoje, percebo que essa reflexão não ficou no papel. Ganhou corpo. Ganhou contexto. Ganhou continuidade.
Porque esta não é a minha primeira travessia por geografias que desafiam o meu referencial.
Ao longo dos últimos meses, tive a oportunidade de participar em congressos e ser orador/palestrante em Jakarta (Indonésia), no Cairo (Egipto), em Jaipur (India). Já anteriormente percorri o Japão, a China, a Tailândia, Singapura... esta última, aliás, o destino final desta minha atual jornada desta semana, onde tantas vezes encontrei uma ideia que continuo a defender: a inovação só faz sentido quando é construída com as pessoas, e não apesar destas...
E ainda assim (ou talvez por isso mesmo!) continuo a ser desafiado.
Continuo esta viagem pelo Oriente com uma certeza desconfortável: experiência não nos imuniza contra a necessidade de desaprender.
Porque viajar, afinal, não é descansar. É desinstalar.
Há um equívoco confortável que fomos alimentando: viajar como pausa, como fuga, como recompensa. Mas a verdade é outra, pelo menos quando escolhemos sair do previsível.
Viajar a sério é desconfortável (sobretudo para nós próprios!).
É fricção. É estranheza. É, muitas vezes, não compreender.
E é exatamente aí que começa o verdadeiro processo de aprendizagem.
Ou melhor: de reaprendizagem.
Falamos incessantemente sobre mudança, inovação, agilidade. Mas ignoramos uma evidência simples: não há espaço para o novo numa mente completamente ocupada pelo velho.
A maioria de nós não precisa de aprender mais.
Precisa, primeiro, de desaprender.
E poucos contextos são tão eficazes para isso como regressar - vezes sem conta - a realidades que não se moldam às nossas referências.
Porque há algo particularmente interessante neste regresso ao Oriente: já não é o choque inicial que mais me desafia. É a subtileza. São os detalhes. São as pequenas incoerências que começo a identificar nas minhas próprias convicções.
Aquilo que antes me surpreendia, hoje interpela-me.
Aqui, os ritmos são outros. As prioridades são outras. A relação com o coletivo, com o tempo, com a autoridade, com o progresso tudo nos obriga a sair dos automatismos.
E isso incomoda. Incomoda-me...
Mas é um incómodo necessário.
Porque nos força a questionar algo que raramente colocamos em causa: o pressuposto de que a nossa forma de ver o mundo é a forma certa.
Quem definiu esse padrão?
E com que legitimidade o tornámos universal?
Quando nos expomos ao diferente de forma continuada e consciente algo começa a acontecer. Pequenas ruturas internas. Fissuras nas nossas certezas. E é precisamente aí que nasce a possibilidade de transformação.
Mas não romantizemos.
Desaprender continua a ser difícil, mesmo quando já o fizemos antes.
Implica abdicar de certo controlo. Implica reconhecer que experiência acumulada não é sinónimo de verdade absoluta. Implica aceitar que aquilo que nos trouxe até aqui pode não ser suficiente para o que vem a seguir.
E isso desafia-nos profundamente.
Talvez por isso muitos viajem, mas poucos evoluam verdadeiramente.
Porque transformar-se exige mais do que mudar de lugar. Exige revisitar e, muitas vezes, reconstruir aquilo que já pensamos saber.
No contexto da liderança, esta é uma das maiores armadilhas: acreditar que experiência é, por si só, garantia de lucidez. Não é.
Sem desaprendizagem contínua, a experiência transforma-se em rigidez mecanizada.
Viajar, quando vivido com intenção, é um dos exercícios mais exigentes de liderança pessoal. Obriga-nos a observar antes de julgar. A escutar antes de reagir. A adaptar antes de impor.
Obriga-nos, no fundo, a mantermo-nos inacabados de forma permanente e assumida.
E talvez seja essa a verdadeira continuidade da jornada que iniciei em crónicas anteriores: entender que desaprender não é um momento, é um processo. E que esse processo não termina com uma viagem, um congresso ou uma experiência internacional.
Continua. Sempre.
Tal como esta viagem.
E talvez seja essa a maior provocação que trago comigo rumo a Singapura, mais uma vez:
não é o mundo que precisa de mudar para nós.
Somos nós que precisamos, continuamente, de reaprender a olhar para ele.
Pedro Ramos

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