Com cinco indicações ao Prêmio Shell, Matheus Macena retorna ao Rio com o solo ‘Edson’
Monólogo escrito, dirigido e interpretado pelo ator aborda a memória de Edson Luís e a cultura do apagamento no Brasil

Após passar por Buenos Aires, o ator e multiartista Matheus Macena retorna ao Rio de Janeiro com o solo ‘Edson’, que cumpre curta temporada no Teatro Municipal Ipanema Rubens Corrêa, a partir de 9 de outubro, às 20h. A montagem permanece em cartaz até 1º de novembro.
Escrito, dirigido e interpretado por Macena, o espetáculo chega ao Rio após temporadas lotadas e com um reconhecimento expressivo: cinco indicações ao 37º Prêmio Shell de Teatro. O artista concorre duas vezes na categoria Melhor Ator, pelas temporadas do Rio de Janeiro e de São Paulo. A montagem também recebeu indicações em Melhor Dramaturgia, para Matheus Macena, Melhor Música, para Pedro Nego, e Melhor Cenário, para Bidi Bujnowski.
Em 2024, Matheus já havia conquistado o Prêmio Shell de Melhor Ator por ‘Musical Pré-Fabricado’, de Michel Melamed.
“Saber que nosso trabalho tão suado toca no coração das pessoas e, para além disso, está alçado aos melhores do ano, é muito gratificante. O que essas grandes premiações representam é a continuidade e a manutenção de um trabalho que começou independente, autoral, sem patrocínio e dentro de uma linguagem contemporânea. Eu espero mesmo que essas cinco indicações deem para nossa peça uma boa e longa expectativa de vida!”, afirma Matheus.
A temporada carioca acontece logo após a passagem do espetáculo por Buenos Aires. Para o artista, retornar ao Rio neste momento também possui um significado político e artístico.
“A segunda temporada carioca acompanhará o processo de eleição. E isso foi intencional. Quero uma peça sobre o movimento estudantil acompanhando a ida às urnas. Sinto que isso faz parte da minha responsabilidade como artista. Neste tempo acirrado de debate, é no teatro que desejo estar”, declara.
Entre memória e ficção
‘Edson’ marca a primeira experiência de Matheus à frente de um monólogo como ator e diretor. A montagem parte da história de Edson Luís de Lima Souto, estudante secundarista de 17 anos assassinado durante uma manifestação no restaurante Calabouço, no Rio de Janeiro, em março de 1968, durante a ditadura militar.
A partir desse episódio histórico, o espetáculo cria possíveis ficções sobre a vida de Edson Luís e de sua família. O diretor musical e guitarrista Pedro Nego, também indicado ao Prêmio Shell, conduz musicalmente a encenação.
A pesquisa que deu origem ao espetáculo começou após o assassinato da vereadora Marielle Franco, em março de 2018. Matheus identificou a distância de exatamente 50 anos entre os dois acontecimentos e passou a investigar as relações entre memória, violência política e apagamento histórico.
“Percebi que esses dois assassinatos, tão importantes para a história nacional, eram separados por exatos 50 anos — Marielle em março de 2018 e Edson em março de 1968. E esse espelho temporal tão evidente só comprovava para mim a força do retorno dos ideais de extrema direita. Então, a necessidade de contar a perspectiva e a história do Edson se torna urgente, porque é recontando o passado que formulamos um futuro”, explica.
O processo de criação envolveu meses de pesquisa na Biblioteca Nacional, com consulta a jornais de época, reportagens e documentos relacionados à morte do estudante.
Para o artista, a dramaturgia precisou ir além da reconstituição documental.
“Conforme o processo artístico caminhava, notei que a justiça dos fatos não era suficiente. Era necessário fabular. Afinal, para um espetáculo teatral é através da poesia que se descobre dignidade. E creio que esses são os pilares da dramaturgia: justiça para os fatos e poesia para dignidade.”
A família como espelho do Brasil
Embora tenha como ponto de partida um episódio específico da história brasileira, ‘Edson’ amplia seu olhar para questões sociais e familiares. Pai, mãe, irmã e Edson formam o núcleo de uma narrativa que procura abordar o período da ditadura a partir de uma perspectiva diferente daquela tradicionalmente apresentada.
A montagem privilegia o olhar de trabalhadores de base, do analfabetismo e da experiência de migrantes nordestinos e nortistas, reconstruindo a trajetória da família Lima Souto desde a saída de Belém do Pará até a chegada ao Rio de Janeiro.
Segundo Matheus, esse recorte busca também discutir os mecanismos de apagamento histórico e a representação de personagens negros e indígenas na produção cultural brasileira.
“Não basta apenas ver corpos semelhantes aos meus na televisão, no cinema e no teatro. O próximo passo para a representatividade é a complexidade emocional. Apenas assim restabeleceremos o principal fator que é retirado dos personagens negros e indígenas: a humanidade.”

A montagem também aborda o contexto que cercou a morte de Edson Luís e sua repercussão política, incluindo a Passeata dos Cem Mil, realizada meses depois, e o endurecimento do regime militar com a edição do Ato Institucional nº 5 (AI-5).
O retorno ao Rio
Depois de uma temporada de estreia com sessões lotadas no Rio de Janeiro, ‘Edson’ chegou a São Paulo, onde também conquistou público e ampliou o debate em torno de sua temática.
Matheus destaca os encontros realizados durante a temporada paulista com sobreviventes da tortura e da censura durante a ditadura militar.
“Colocamos o espetáculo no centro das discussões nacionais e no espelho da vida real, e nesse encontro explodiu uma punção de memória incrível!”
A nova temporada carioca representa, assim, mais uma etapa de um projeto que o artista considera um rito de passagem em sua trajetória profissional.
Sobre Matheus Macena
Carioca, Matheus Macena tem 31 anos e conquistou o Prêmio Shell de Melhor Ator em 2024 por sua atuação em ‘Musical Pré-Fabricado’, obra autoral e dirigida por Michel Melamed, inspirada nas canções da banda Los Hermanos. Entre seus trabalhos estão ‘Veias Abertas 60' 30' 15'’, em colaboração com a Aquela Cia. de Teatro e inspirado na obra de Eduardo Galeano, além de ‘Guanabara Canibal’ e ‘Caranguejo Overdrive’, pelo qual recebeu indicações aos prêmios Cesgranrio, APTR e Shell.
No audiovisual, participou da novela ‘Guerreiros do Sol’ e dos longas-metragens ‘Um Animal Amarelo’, ‘Transe’, ‘Carne Fresca’, ‘Baleia’ e ‘Assalto à Brasileira’.
Como roteirista e diretor, realizou o curta-metragem ‘Baby’, que aborda a crise climática a partir de uma perspectiva afrodiaspórica.
SERVIÇO:
“EDSON”
Temporada: 09 de outubro a 1º de novembro de 2026
Horário: Sexta-feira e Sábado às 20h, Domingo às 19h
Ingressos: R$ 35 (meia-entrada) | R$ 70 (inteira)
Link para compra do Ingresso: https://bileto.sympla.com.br/event/126722
Local: Teatro Municipal Ipanema Rubens Corrêa
Endereço: Rua Prudente de Moraes, 824 - Ipanema - Rio de Janeiro
Tel.: (21) 2523-9794
Classificação Indicativa: 16 anos
Duração: 75 minutos
Instagram: @edson.espetaculo
FICHA TÉCNICA
Direção, Dramaturgia e Atuação: Matheus Macena
Figurinista e Cenógrafa: Bidi Bujnowski
Direção Musical e Músico : Pedro Nego
Diretor Técnico e Iluminador: Gabriel Prieto
Projeto Gráfico: Nina Bruno Malta
Fotografia: Lucas Nogueira
Assessoria de Impresa: Marrom Glacê Comunicação
Direção de Produção: Corpo Rastreado
Produção Local: Helena Panno
Produção executiva: Gisely Alves
Alex Varela


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