Crítica – “Cidades latino-americanas são grandes depósitos de cadáveres”
Estreou Frankenstein no teatro do Centro Cultural Banco do Brasil 1 (CCBB RIO).
Espetáculo do coletivo GOMPA.

O texto de autoria de Camila Bauer e Pedro Bertoldi, inspirada na obra Frankenstein, de Mary Shelley, apresenta uma inovação: o criador cria uma criatura do gênero feminino a partir de diversas partes de corpos espalhados e coletados pelas cidades latino-americanas, espaços de depósitos de cadáveres de diversos agentes sociais, como pretos, indígenas, pobres e humildes, entre outros, resultado da nossa herança colonial, legados das nossas ancestralidades.
Fruto dessa produção, a criatura inventada é produto dessa diversidade de corpos de gentes, dessa mestiçagem latino-americana, elementos constitutivos da nossa formação identitária. Ela nasceu subversiva, inquieta e rebelde. Não aceita as imposições do criador. Ela é desobediente, quer subverter a ordem!
Os atores-bailarinos Fabiane Severo e Alexsander Vidaleti deixam transparecer essa perspectiva decolonial e conflituosa por meio dos seus corpos, sem o uso da palavra. Eles realizam intensos e pulsantes movimentos, gestuais, expressões corporais e coreografias, tudo ao som de um fundo musical que os acompanha o tempo integral. Não utilizam as suas respectivas vozes, pois há um narrador oculto (Sandra Dani e Elcio Rossini), que narra com clareza, utiliza linguagem acessível, e uma boa retórica. Ademais, eles utilizam diversos objetos cenográficos que auxiliam a narrativa.
A direção de Camila Bauer é sensível, inovadora, irreverente, e crítica, com marcações precisas que tornam o espetáculo dinâmico, e bem conduzido, potencializando a qualidade das interpretações do elenco.

Os figurinos criados por Renan Vilas são simples e adequados, camisa, calça e tênis pretos, que facilitam a realização dos movimentos e os seus deslocamentos.
A cenografia e objetos criados por Élcio Rossini é simples e adequada. Ela é constituída por placas côncavas e convexas, de um lado espelhadas, e de outro vermelhas, que são utilizadas pelos atores ao longo do espetáculo, bem como por inúmeros objetos como mesa de alumínio com rodinhas, potes de vidro, bacia de metal, tesouras cirúrgicas, entre outros.
A coreografia criada por Fabiane Severo, Alexsander Vidaleti, e Douglas Jung é dinâmica, apresenta movimentos corporais equilibrados e harmônicos, e intenso gestual. Os movimentos dos corpos deixam transparecer o conflito entre o criador e a criatura, que quer se libertar de seu produtor.
A composição e cena sonora de Álvaro Rosa Costa, e o piano de Simone Rasslan dão ao espetáculo uma sonoridade poética.
A iluminação criada por Ricardo Vivian realça os movimentos dos atores-bailarinos, e alterna momentos de escuridão e claridade, luz e sombra.
Frankenstein é um espetáculo cênico cujo texto é inovador e propõe uma releitura da obra da inglesa Mary Shelley adequada à nossa realidade latino-americana; uma dupla de atores-bailarinos com uma atuação intensa e de qualidade; e relaciona dança, teatro, artes visuais e trilha sonora de forma coesa e equilibrada.
Alex Varela


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