Chefe ou “você pode me chamar pelo nome”? O poder também fala português, mas não da mesma forma
- Pedro Ramos

- 21 de jun.
- 3 min de leitura

Se ao longo das crónicas anteriores fomos percebendo que, entre portugueses e brasileiros, não falamos exatamente a mesma língua, não comunicamos da mesma forma, não confiamos com a mesma “velocidade” e não vivemos o tempo da mesma maneira… então há um tema onde tudo isso se cruza de forma inevitável: o poder.
Mais concretamente, a forma como lidamos com a hierarquia.
Em Portugal, a hierarquia existe... e sente-se.
Está nas palavras, no tom, no espaço entre as pessoas.
O “Dr.” ainda circula, o respeito formal organiza relações e a autoridade, mesmo quando não é imposta, é reconhecida.
Não é necessariamente rígida. Mas é clara.
No Brasil, a hierarquia também existe mas... disfarça-se melhor.
Aproxima-se pelo nome próprio, encurta distâncias, cria uma sensação de acessibilidade que, à superfície, pode parecer quase informalidade total.
Mas atenção: proximidade não é ausência de hierarquia.
É apenas outra forma de a gerir.
E é aqui que, mais uma vez, começam os equívocos.
O português pode interpretar essa informalidade brasileira como falta de respeito, excesso de à-vontade, uma diluição perigosa da autoridade. “Há limites”, pensa.
O brasileiro pode olhar para a formalidade portuguesa e ver distância desnecessária, rigidez, barreiras que dificultam a comunicação. “Podia ser mais simples”, sente.
E ambos estão a ler sinais reais… com códigos diferentes.
Nas organizações, isto ganha uma dimensão ainda mais crítica.
Em contextos portugueses, a autoridade tende a ser mais implícita, mas menos questionada. Espera-se alinhamento, há um respeito estrutural pela posição e o confronto hierárquico, quando existe, é muitas vezes mais contido.
No Brasil, há maior abertura aparente ao diálogo com a liderança, mais fluidez na interação, mais espaço para troca. Mas isso não significa ausência de poder. Significa apenas que este “circula” com outra linguagem.
O risco? Confundir forma com substância.
Um líder português pode achar que perdeu autoridade num contexto mais informal.
Um líder brasileiro pode subestimar o peso simbólico da hierarquia em Portugal, e ser percebido como pouco estruturado.
E, mais uma vez, o problema não está na diferença.
Está na leitura automática da diferença.
Porque hierarquia não é apenas um modelo organizacional.
É um código cultural profundo sobre como entendemos respeito, autoridade e influência.
E ignorar isso tem consequências diretas: decisões que não são desafiadas quando deviam ser, ou que são desafiadas sem o enquadramento certo; equipas que se retraem ou que avançam demasiado; líderes que não percebem porque é que, num contexto, são seguidos… e noutro, apenas tolerados.
A verdadeira maturidade organizacional não está em escolher entre formalidade e informalidade.
Está em saber usar ambas com intenção.
Criar proximidade sem perder clareza de papéis.
Manter estrutura sem bloquear a comunicação. Permitir acesso sem diluir responsabilidade.
Porque no fim do dia, não se trata de tratar alguém por “Dr.” ou pelo primeiro nome.
Trata-se de algo mais exigente: garantir que o respeito não depende da forma mas também não é destruído por esta.
E talvez este seja o melhor fecho para este ciclo sobre Pessoas entre Portugal e Brasil: não é a língua, não é o tempo, não é a confiança, não é sequer a comunicação que mais nos separa.
É a forma como interpretamos tudo isso… sem perceber que o outro está a jogar com regras diferentes.
A boa notícia?
Essas regras não são incompatíveis.
Mas exigem algo que continua a ser raro desse lado e deste lado do Atlântico: a Consciência.
Pedro Ramos

Comentários