Casa dos Açores do Havai é oficialmente reconhecida em Hilo
- Ígor Lopes

- 30 de dez. de 2025
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Foto: divulgação

“A Casa dos Açores do Havai concretiza finalmente uma intenção estratégica que remonta aos primeiros governos dos Açores, na década de oitenta do século passado”. Foi com estas palavras que o diretor regional das Comunidade do Governo dos Açores reagiu à oficialização da Casa dos Açores do Havai, no último dia 19 de dezembro, em Hilo, na ilha da Big Island. A entidade, que reforça agora a rede mundial das Casas dos Açores, reconhece institucionalmente, segundo o governo dos Açores, “uma das mais antigas e marcantes comunidades açorianas fora do Atlântico”.
O reconhecimento oficial da Casa dos Açores do Havai foi formalizado através da assinatura de um protocolo de cooperação, tornando esta a vigésima Casa dos Açores no mundo e a terceira nos Estados Unidos da América, depois da Califórnia e da Nova Inglaterra.
O protocolo foi assinado pelo secretário regional da Agricultura e Alimentação, António Ventura, em representação do presidente do governo dos Açores, José Manuel Bolieiro, com a presença de José Andrade.

Segundo apurámos, “a nova instituição nasceu da iniciativa de um grupo de açordescendentes das ilhas de Hawai’i, Maui, O’ahu e Kaua’i, presidido pela professora
universitária Marlene Andrade Hapai, e resultou de um trabalho desenvolvido ao longo do último ano pela Secretaria Regional dos Assuntos Parlamentares e Comunidades”. Concretizou-se, assim, uma aspiração antiga, reconhecida desde a década de 1980, de dar expressão institucional a esta diáspora no Pacífico.
“Impressiona e orgulha encontrar a Açorianidade ainda tão presente nas ilhas do Havaí, a 12 mil quilómetros de distância e mais de 100 anos depois de concluída a nossa emigração. A nova Casa dos Açores simboliza a ligação açoriana do Atlântico ao Pacífico, recuperando do passado e potenciando para o futuro o destino mais distante e mais mítico da nossa diáspora”, mencionou José Andrade.
Informações do governo açoriano indicam que “a criação da Casa dos Açores do Havai representa mais do que um ato administrativo, ou seja, traduz também uma aposta estratégica na valorização da diáspora como extensão viva do arquipélago”.
Para Paulo Estêvão, secretário regional com a tutela das Comunidades, trata-se de “uma visão de futuro ancorada na identidade, na memória e na capacidade dos Açores se projetarem como um arquipélago com expressão global”. Este responsável descreveu os Açores como “o Havai do Atlântico”, destacando a origem vulcânica comum, a centralidade do oceano, a convivência intensa com a natureza e uma cultura de resiliência que moldou comunidades habituadas a transformar o isolamento em abertura ao mundo.

Essa proximidade histórica e cultural tem criado, segundo o governante, “uma base sólida para uma cooperação inovadora e sustentável”.
História valorizada e recordada
Entre 1878 e 1913, mais de 14 mil açorianos emigraram para o Havai, maioritariamente para trabalhar nas plantações de cana-de-açúcar, levando consigo a língua, a fé, os valores comunitários e práticas culturais que perduram até hoje, como as Festas do Espírito Santo, a música e a gastronomia, símbolos de solidariedade, partilha e identidade.
Atualmente, o arquipélago do Havai acolhe dezenas de milhares de açordescendentes, muitos com ascendência também madeirense, que mantêm uma ligação afetiva profunda às ilhas de origem. A preservação das tradições ao longo de várias gerações demonstra a capacidade de integração sem perda de identidade cultural.
A Casa dos Açores do Havai integra uma visão mais ampla de um mundo açoriano global, com comunidades enraizadas na América do Norte e do Sul, formando uma verdadeira geografia humana que se estende do Atlântico ao Pacífico. Este património humano constitui, segundo o governo regional, um ativo estratégico para o futuro dos Açores.
Sede será apresentada em 2026
Nesse contexto, têm sido abertas novas oportunidades de cooperação entre os Açores e o Havai, nomeadamente na partilha de conhecimento entre territórios insulares vulcânicos, na ciência do mar, na sustentabilidade, no turismo de identidade, no intercâmbio educativo e juvenil e na diplomacia cultural.
A ambição da nova Casa materializa-se também na construção do Centro Cultural Saudades, a expensas da comunidade açordescendente, com inauguração prevista para 2026: implantado num terreno com cerca de quatro mil metros quadrados, o projeto representará um investimento estimado de dois milhões de dólares e será a sede da Casa dos Açores do Havai.
Na sequência desta criação, vários grupos de havaianos já estão a programar viagens aos Açores, reforçando laços afetivos, promovendo o turismo de raízes e abrindo novas perspetivas de cooperação cultural, científica e económica.
Nos últimos quatro anos, o governo dos Açores apoiou a criação de novas Casas dos Açores em Apiacá e Belo Horizonte (Brasil), Coimbra (Portugal) e agora Hilo, consolidando uma rede que valoriza uma ideia central: ser açoriano é pertencer a um arquipélago e a uma comunidade global, com história, presente e horizonte de futuro.
“A vontade expressa dos açordescendentes do Havai em recuperarem e valorizarem as suas raízes açorianas, designadamente através de viagens de conhecimento ou mesmo de intenções de investimento, faz com que a fundação desta Casa dos Açores seja uma aposta ganha”, finalizou José Andrade.
Ígor Lopes

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