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Revista do Villa

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Carne exposta, do céu ao asfalto: as imagens de humilharam o Brasil em 2025


O ano de 2025 ficará registrado na memória coletiva brasileira não por grandes avanços sociais, mas por imagens que escancararam a fragilidade da dignidade humana e o abismo da empatia. Duas cenas, em particular, tornaram-se símbolos de um Brasil que parece lutar contra seus próprios demônios: a barbárie do feminicídio na Marginal Tietê e o polêmico "show de caridade" aéreo em Aparecida de Goiânia.


O empresário Leandro Nóbrega, proprietário do Frigorífico Goiás, protagonizou uma cena que dividiu opiniões e gerou uma onda de indignação nacional. Ao sobrevoar áreas periféricas de Aparecida de Goiânia (GO) em um helicóptero, o empresário e sua esposa foram filmados lançando peças de carne diretamente para a população que se aglomerava abaixo. Para muitos, a cena não foi um ato de filantropia, mas sim um espetáculo de humilhação. A dinâmica — pessoas correndo e disputando alimento que caía do céu — evocou paralelos sombrios com cenários de guerra ou crises humanitárias extremas, como a distribuição de suprimentos por soldados em zonas de refúgio ou na Faixa de Gaza. 


A Crítica: Ativistas e sociólogos apontaram que a caridade, quando despojada de respeito e organização, fere a dignidade do receptor. O ato foi visto como uma autopromoção política e empresarial que utilizou a fome alheia como cenário para um vídeo de redes sociais. A Defesa: Por outro lado, defensores do empresário argumentaram que o "importante é ajudar" e que a intenção era aliviar a carência alimentar de famílias em situação de vulnerabilidade, independentemente da estética do método utilizado.


O Contraste da Barbárie: A Tragédia na Marginal Tietê


O impacto da cena de Goiás foi potencializado pelo choque de outra imagem terrível que marcou o período: o feminicídio brutal ocorrido em São Paulo. A cena da jovem Tainara de Souza, que foi atropelada e arrastada por cerca de um quilômetro  por seu ex-companheiro na Marginal Tietê tornou-se o retrato máximo da misoginia e da violência desenfreada.


Essas duas imagens, embora de naturezas diferentes — uma de violência física direta e outra de violência simbólica e social — convergem para um ponto comum: a coisificação do ser humano.


"Em uma imagem, a vida é descartada no asfalto; na outra, a dignidade é jogada do alto. Ambas revelam um país onde o 'outro' é reduzido a um objeto de fúria ou de exibicionismo."


As repercussões desses eventos em 2025 mostram que o Brasil vive um momento de profunda introspecção e polarização. O gesto de Leandro Nóbrega, frequentemente associado ao seu posicionamento político bolsonarista, inflamou ainda mais os debates sobre como a elite brasileira enxerga a pobreza. Dizer que essas imagens "mancharam" o ano é um eufemismo. Elas servem como um espelho incômodo. A comparação com refugiados e crianças em zonas de guerra não é gratuita; ela ressalta que, mesmo em tempos de paz oficial, a desigualdade brasileira impõe condições de sobrevivência que beiram o desespero.A caridade que não reconhece o próximo como um igual é apenas uma forma de exercer poder.


O episódio em Aparecida de Goiânia, somado à violência de gênero que segue sangrando as avenidas do país, deixa um alerta claro: não há desenvolvimento possível sem a preservação da dignidade humana básica.


"O ano de 2025 será lembrado como o ano em que a carne — seja a que alimenta, seja a que sofre a violência — foi exposta da maneira mais crua possível diante das câmeras."


Gilson Romanelli


 
 
 

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