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CAIXA Cultural Rio de Janeiro recebe segunda temporada do espetáculo “Desfazenda – Me Enterrem Fora Desse Lugar”

29 de out.
4 min de leitura

Montagem do O Bonde, dirigida por Roberta Estrela D’Alva, parte de uma história real de crianças negras escravizadas décadas após a abolição para discutir a permanência da violência racial no Brasil


Desfazenda - Crédito fotográfico - Noélia Nájera
Desfazenda - Crédito fotográfico - Noélia Nájera

A CAIXA Cultural Rio de Janeiro apresenta, de 5 a 15 de novembro, o espetáculo “Desfazenda – Me Enterrem Fora Desse Lugar”, no Teatro Nelson Rodrigues, no Centro do Rio de Janeiro. Com direção de Roberta Estrela D’Alva e dramaturgia de Lucas Moura, a montagem do coletivo teatral paulistano O Bonde é livremente inspirada no documentário “Menino 23 – Infâncias Perdidas no Brasil”, de Belisario Franca, que investiga a história real de crianças negras retiradas de um orfanato no Rio de Janeiro e submetidas à escravidão em uma fazenda no interior de São Paulo, em 1930, décadas após a abolição. As apresentações acontecem de quinta a sábado, às 19h, e aos domingos, às 18h. Nos dias 8 e 15 de novembro, as sessões contam com acessibilidade em Libras e bate-papo com o elenco.


Premiado pela Associação Paulista de Críticos de Arte (APCA) como Melhor Espetáculo Virtual de 2021 e indicado ao Prêmio Shell na categoria Melhor Dramaturgia, “Desfazenda” propõe uma reflexão crítica sobre a continuidade da necropolítica que afeta os corpos negros. A obra integra a Trilogia da Morte, pesquisa do grupo sobre a violência direcionada à população negra em diferentes fases da vida, e utiliza a linguagem teatral para aproximar acontecimentos históricos das questões raciais que permanecem presentes na sociedade brasileira.

O espetáculo conta com patrocínio da CAIXA e do Governo do Brasil.


Desfazenda - Crédito fotográfico - Noélia Nájera
Desfazenda - Crédito fotográfico - Noélia Nájera

Teatro, palavra e resistência

Segunda montagem do Bonde e primeiro espetáculo adulto do coletivo, “Desfazenda” aposta na força da atuação e da palavra para construir sua narrativa. A encenação minimalista reúne quatro intérpretes em cena, sem adereços, em um espaço no qual luz e som contribuem para criar atmosferas e conduzir a experiência do público.


Influenciada pelo teatro hip-hop, pelo spoken word (poesia falada) e pela cultura das batalhas de poesia, a montagem explora ritmo, musicalidade e presença cênica como elementos fundamentais da dramaturgia. A palavra conduz a narrativa e estabelece uma relação com o público que combina experiência sensorial e distanciamento crítico.


Na história, as personagens 12, 13, 23 e 40 são pessoas negras que, ainda crianças, foram salvas da guerra por um padre branco e passaram a viver em uma fazenda, onde realizam tarefas diárias sob a supervisão de Zero, um homem negro um pouco mais velho. O padre permanece na capela, a guerra nunca chega à fazenda e, sempre que as personagens questionam as regras daquele universo, o sino toca e a rotina recomeça. Até que essa ordem deixa de se sustentar.


Desfazenda - Crédito fotográfico - Noélia Nájera
Desfazenda - Crédito fotográfico - Noélia Nájera

História e memória: a inspiração em “Menino 23”

O espetáculo dialoga com a história de mais de 50 meninos negros retirados de um orfanato no Rio de Janeiro e levados para uma propriedade rural no interior de São Paulo, onde foram isolados e escravizados. O caso, ocorrido em 1930, expõe a permanência de práticas de exploração racial após a abolição e a influência de ideais eugenistas na formação da sociedade brasileira.


Ao transformar essa história em matéria teatral, “Desfazenda” amplia a discussão para além da reconstituição dos fatos. A obra questiona as estruturas de poder que sustentam o racismo e a desumanização da população negra, propondo uma reflexão sobre as continuidades entre o passado escravista e as formas contemporâneas de violência.


A escolha do Rio de Janeiro para a temporada acrescenta uma dimensão simbólica à montagem. A cidade foi o ponto de partida da história que inspira o espetáculo e também um dos principais centros do tráfico de pessoas escravizadas no Brasil. Apresentar a obra nesse território significa retomar essa memória e abrir espaço para o debate sobre racismo estrutural, desigualdade e justiça social.


O título “Me Enterrem Fora Desse Lugar” expressa o desejo de romper com estruturas embranquecidas, hegemônicas e violentas. Nesse sentido, o espetáculo propõe uma reflexão sobre a possibilidade de existir com dignidade e sobre a necessidade de enfrentar mecanismos históricos de opressão que continuam a determinar as condições de vida da população negra.


O Bonde: pesquisa e criação negra

Fundado em 2017, O Bonde é um coletivo artístico formado por artistas negros e periféricos, oriundos de diferentes períodos da Escola Livre de Teatro de Santo André. O grupo desenvolve uma pesquisa de linguagem que tem na palavra e na narratividade ferramentas de acesso, denúncia e ampliação das discussões afro-diaspóricas.


A abordagem épica da palavra, entendida como estratégia de distanciamento dramático e aproximação narrativa, orienta o trabalho do coletivo. Em suas criações, O Bonde articula investigação estética e reflexão racial para abordar questões históricas e contemporâneas relacionadas às experiências negras no Brasil.


Desfazenda - Crédito fotográfico - Noélia Nájera
Desfazenda - Crédito fotográfico - Noélia Nájera

Serviço:

[Teatro] Espetáculo “Desfazenda – Me Enterrem Fora Desse Lugar”

Local: CAIXA Cultural Rio de Janeiro – Teatro Nelson Rodrigues

Datas: 5 a 15 de novembro de 2026

Horários: Quinta a sábado, às 19h; domingo, às 18hHorário de funcionamento da Bilheteria: Quarta a domingo, das 13h às 19h.; 

Ingressos: R$40,00 plateia | R$20,00 balcãoVendas online: https://www.bilheteriadigital.com/caixaculturalrj 

Acessibilidade: Sessões com intérprete de Libras nos dias 8 e 15 de novembro

Bate-papo com o elenco: Após as apresentações dos dias 8 e 15 de novembro

Classificação indicativa: 14 anosInformações: (21) 3083-1785 | site  www.caixacultural.gov.br | Instagram: @caixaculturalrj;


Ficha Técnica

Direção: Roberta Estrela D'Alva

Dramaturgia: Lucas Moura

Elenco: Ailton Barros, Filipe Celestino, Jhonny Salaberg e Joy Catarina

Vozes Mãe e Criança: Grace Passô e Negra Rosa

Direção Musical: Dani Nega e Roberta Estrela D'alva

Produção Musical: Dani Nega

Músicas "Saci" e "Tocar o Gado": Dani Nega e Lucas Moura

Sample "Menino 23": Belisário Franca

Treinamento e Desenho de Spoken Word: Roberta Estrela D'Alva

Cenografia e Figurino: Ailton Barros

Desenvolvimento de figurino: Leonardo Carvalho

Desenho de Luz: Matheus Brant

Montagem de Luz: Matheus Brant e Leticia Nanni

Operação de Luz: Matheus Brant , Nayka Alexandre e Leticia Nanni

Técnico de som: Hugo Bispo

Cenotecnia: Douglas Vendramini e Helen Lucinda

Assessoria de Imprensa: Monteiro Assessoria

Produção: Corpo Rastreado

Realização: O Bonde


 


Higor de Souza

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