Bolinha: o comunicador que abriu portas para gerações de artistas e marcou a televisão brasileira
- Igor Alcantara

- há 7 dias
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Edson Cabariti transformou simplicidade, irreverência e talento em um dos programas de auditório mais populares da história da TV

Existem personalidades da televisão que atravessam gerações. Mesmo quem não viveu o auge de suas carreiras conhece seus nomes e reconhece a importância que tiveram para a história da comunicação no Brasil. Com Bolinha foi exatamente assim.
Nasci em 1993. Quando Bolinha se despediu da televisão, eu ainda era uma criança e, por isso, não tive a oportunidade de acompanhar seu trabalho. Mesmo assim, seu nome sempre foi citado como referência entre os grandes apresentadores do país. Ao assistir recentemente a uma emocionante homenagem conduzida pela cantora e apresentadora Viviane Vidmar, em seu canal no YouTube, com a participação da filha do Bolinha, Vitória Cury, e de diversos artistas que passaram pelo Clube do Bolinha, compreendi por que seu legado continua tão vivo na memória da televisão brasileira.
Entre histórias de bastidores, lembranças emocionantes e depoimentos de gratidão, ficou evidente que Bolinha fez muito mais do que comandar um programa de auditório. Ele acolhia talentos, incentivava carreiras e fazia questão de abrir espaço para quem ainda buscava uma oportunidade de mostrar seu trabalho ao Brasil.
Foi essa emoção que me inspirou a revisitar a trajetória de Edson Cabariti "o eterno Bolinha" e recordar a história de um homem que transformou simplicidade, espontaneidade e carisma em uma das carreiras mais marcantes da televisão brasileira.
Antes da fama, Edson Cabariti conheceu de perto as dificuldades da vida.
Filho de imigrantes de origem síria e turca, cresceu trabalhando em diversas profissões. Foi engraxate, mascate, feirante, balconista, cobrador de ônibus e vendedor ambulante. Essa vivência moldou seu jeito espontâneo de conversar com o público e fez com que jamais perdesse a simplicidade, mesmo depois de se tornar um dos maiores apresentadores do país.
Foi justamente essa facilidade para lidar com as pessoas que abriu as portas do rádio e, posteriormente, da televisão.

O acaso que mudou sua carreira
Sua entrada definitiva na história da televisão aconteceu quase por acaso. Em 1967, na TV Excelsior, o apresentador foi chamado às pressas para substituir Chacrinha, que havia deixado a emissora após um desentendimento.
O desempenho surpreendeu tanto a direção quanto o público.
O comunicador improvisava, brincava e dominava o palco de maneira natural. Ali nascia definitivamente o personagem Bolinha.
O Clube do Bolinha virou fenômeno nacional
Em 1974, já na Band, estreava o programa que o eternizaria.
Durante aproximadamente vinte anos, o Clube do Bolinha reuniu música, humor, dança, concursos e participação popular, tornando-se um dos programas de maior audiência das tardes de sábado.
As famosas Boletes, suas camisas estampadas, o jeito irreverente de comandar o palco e o incentivo constante aos artistas iniciantes transformaram a atração em uma verdadeira vitrine da música brasileira.
Muito antes dos realities musicais, Bolinha já descobria talentos.
Diversos artistas passaram pelo palco do programa antes da fama nacional,
entre eles: Leandro & Leonardo; Chitãozinho & Xororó; Alan & Aladim; Margareth Menezes; Sidney Magal; Wando; Amado Batista; Fafá de Belém; Agnaldo Timóteo; Jair Rodrigues; Moacyr Franco.
Muitos retornariam anos depois apenas para agradecer ao apresentador pelo espaço que receberam quando ainda Muito além do entretenimento.
Embora fosse lembrado pelo humor e pela alegria, Bolinha teve um papel importante na democratização da televisão. Seu palco recebia artistas populares, sertanejos, sambistas, humoristas, transformistas, bailarinos e pessoas anônimas, oferecendo espaço para manifestações culturais que nem sempre encontravam visibilidade
em outras emissoras.
O programa refletia um Brasil diverso, espontâneo e popular, aproximando o público da televisão de uma maneira que poucos comunicadores conseguiram repetir.
A doença e a despedida
Em meados da década de 1990, Bolinha passou a enfrentar um câncer no aparelho digestivo.
Mesmo lutando contra a doença durante cerca de três anos, seu estado de saúde piorou rapidamente nos últimos meses de vida.
Na madrugada de 1º de julho de 1998, o apresentador morreu em São Paulo, apenas quinze dias antes de completar 62 anos.
Sua morte repercutiu em praticamente todos os telejornais e programas de entretenimento do país. Artistas, cantores e colegas de televisão prestaram homenagens emocionadas àquele que havia aberto portas para tantas carreiras.
O sentimento predominante era de que a televisão brasileira perdia um de seus comunicadores mais autênticos.

Vitória Cury: a guardiã da memória do pai
Depois da morte de Bolinha, sua filha, Vitória Cury, assumiu a missão de preservar a história construída pelo pai.
Ela passou a reunir fotografias, figurinos, documentos, gravações e objetos pessoais com o objetivo de criar o Instituto Edson Bolinha Cabariti, dedicado à preservação da memória do apresentador.
Em diversas entrevistas, Vitória revelou que considera essa uma missão de vida.
Também compartilhou lembranças dos últimos momentos ao lado do pai, demonstrando o forte vínculo familiar e o desejo de manter vivo seu legado para as novas gerações.
Um estilo que inspirou gerações
É impossível contar a história dos programas de auditório sem mencionar Bolinha. Seu jeito de conversar diretamente com o público, valorizar artistas iniciantes e conduzir atrações ao vivo influenciou diversos apresentadores que vieram depois.
Embora cada um tenha desenvolvido seu próprio estilo, comunicadores como Fausto Silva, Gugu Liberato, Ratinho e Raul Gil ajudaram a consolidar um formato de entretenimento popular do qual Bolinha foi um dos principais pioneiros.
Sua influência pode ser percebida na valorização da música ao vivo, dos quadros com participação popular e na figura do apresentador como alguém próximo do telespectador.

Um legado que permanece
Vinte e oito anos após sua partida, Bolinha continua sendo lembrado como um símbolo de uma época em que a televisão reunia famílias inteiras diante da tela.
Mais do que um animador de auditório, foi um comunicador que acreditava no talento das pessoas, incentivava novos artistas e fazia da simplicidade sua maior marca.
Em tempos de formatos cada vez mais tecnológicos, sua trajetória permanece como um exemplo de que o carisma, a autenticidade e o respeito ao público continuam sendo ingredientes insubstituíveis para quem deseja permanecer na memória coletiva.
Porque alguns apresentadores fizeram sucesso. Bolinha fez história.
Igor Alcantara









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