As relações que nos adoecem também podem nos transformar
- Adilson Henrique Narde & José Gabriel Almeida

- 2 de ago.
- 2 min de leitura
Durante muitos anos, achei que o problema era comigo.

Não porque alguém tivesse dito isso de forma explícita, mas porque, aos poucos, fui aprendendo a ocupar cada vez menos espaço. Cresci ouvindo piadas que machucavam, percebendo olhares que julgavam antes mesmo de me conhecerem e tentando descobrir qual era a versão de mim que seria aceita.
Como acontece com tantas pessoas LGBTQIA+, aprendi cedo que, às vezes, o silêncio parecia mais seguro do que a verdade.
Durante muito tempo, viver escondido foi uma forma de continuar pertencendo.
Hoje percebo que aquela não era apenas a minha história. Era a história das relações que me ensinaram a sentir medo.
Mas a vida também tem uma maneira curiosa de reorganizar o quebra-cabeça.
Enquanto algumas pessoas me convenceram de que eu precisava esconder quem era, outras fizeram exatamente o contrário. Elas me mostraram que existir não deveria exigir disfarces.
Uma dessas pessoas foi José Gabriel Almeida.
Antes de conhecê-lo como psicanalista, conheci o homem.

A forma como ele escutava as pessoas, o respeito com que acolhia diferentes histórias e a delicadeza com que compreendia o sofrimento humano me fizeram enxergar algo que eu ainda não conseguia ver em mim mesmo: ninguém deveria precisar carregar sozinho o peso de ser quem é.
Nossa relação transformou muitas coisas, mas talvez a principal delas tenha sido esta: comecei a acreditar que vínculos também podem ser lugares de cura.
Foi convivendo com José e acompanhando seu trabalho que compreendi, de maneira muito concreta, aquilo que a psicanálise nos ensina há tanto tempo: somos constituídos pelas relações, mas não estamos condenados a repetir para sempre aquelas que nos feriram.
Essa percepção também me fez olhar para a minha própria trajetória com mais gentileza.
O bullying sofrido na escola, a homofobia vivida dentro e fora de casa, os anos em que permaneci no “armário”e o medo constante da rejeição continuam fazendo parte da minha história. Eles explicam parte do caminho percorrido, mas deixaram de definir o destino.
Porque outras pessoas apareceram.
Algumas ofereceram amizade quando eu esperava julgamento. Outras simplesmente permaneceram.
Talvez seja exatamente por isso que eu acredite tanto na força da escuta.
Quando somos acolhidos sem a obrigação de esconder partes de nós mesmos, algo começa a mudar por dentro.
Nenhuma relação saudável apaga as dores do passado.
Mas ela pode nos ensinar que existe outra maneira de viver.
Costumamos acreditar que a transformação acontece quando mudamos de cidade, de trabalho ou de rotina. Hoje penso diferente. As maiores mudanças da minha vida começaram quando encontrei pessoas que mudaram a forma como eu me relacionava comigo mesmo.
Talvez seja esse o verdadeiro poder dos encontros.
Algumas relações nos ensinam o medo.
Outras nos devolvem a coragem.
E, às vezes, basta uma única relação construída com respeito, escuta e afeto para que uma história inteira comece a ser escrita de outro jeito.
Adilson Henrique Almeida
@adilsoncomalmeida
José Gabriel Almeida
@jgalmeida.psi
Adilson Henrique Narde, José Gabriel Almeida

Acredito que uma das partes mais difíceis é reconhecer que nem toda relação que nos transforma o faz de forma leve. Algumas nos mostram feridas que ainda não conhecíamos, revelam padrões que repetimos e nos convidam a olhar para nós mesmos com mais honestidade. A transformação começa quando deixamos de perguntar apenas "por que isso aconteceu comigo?" e passamos a perguntar "o que essa experiência revela sobre mim e o que posso construir a partir dela?". Obrigado pela reflexão.