top of page
FB_IMG_1750899044713.jpg

LUSO-BRASILEIRA

REVISTA DO VILLA

Luso-Brasileira

luso-brasileira

Artigo 4- Urgente para quem? O tempo não é o mesmo dos dois lados do Atlântico

Há algo que raramente entra nas reuniões, mas que decide quase tudo: a forma como cada cultura vive o tempo.  Portugal e Brasil não estão apenas em fusos horários diferentes. Estão em ritmos diferentes. 



Em Portugal, o tempo é tratado com respeito, quase com cautela. Decide-se depois de analisar. Avança-se depois de validar. Há uma relação forte com o planeamento, com a sequência lógica, com a ideia de que fazer bem à primeira evita corrigir depois. 

É um tempo mais deliberado. Mais contido. Mais… paciente. 

No Brasil, o tempo é movimento. É adaptação constante. Decide-se para testar. Avança-se para ajustar.

Há uma urgência implícita, uma energia que empurra para a ação mesmo quando nem todas as variáveis estão fechadas. 

É um tempo mais imediato. Mais fluido. Mais… vivo. 

E, inevitavelmente, um lado começa a irritar o outro. 

O português olha para o ritmo brasileiro e vê precipitação, falta de estrutura, decisões que nascem incompletas. “Isto precisava de ser melhor pensado”, dirá; muitas vezes tarde demais. 


O brasileiro olha para o ritmo português e vê lentidão, excesso de análise, oportunidades a morrer na praia. “Já dava para ter avançado”, dirá; muitas vezes já sem paciência. 

E ambos têm razão. 


O problema é que, nas organizações, esta diferença não aparece como “ritmo cultural”. Aparece como julgamento. 

“São desorganizados.” “São burocráticos.” “São acelerados.” “São travados.” 

Rótulos fáceis para explicar aquilo que ninguém está realmente a tentar entender. 


Depois surgem os sintomas clássicos: projetos que não andam ao mesmo ritmo, equipas desalinhadas na urgência, decisões que parecem sempre cedo demais para uns e tarde demais para outros. 

Um lado pede mais análise.

O outro pede mais ação. 

E a tensão instala-se exatamente onde devia haver complementaridade. 

Porque a verdade incómoda é esta: nenhum dos modelos funciona sozinho. 

Sem velocidade, não há adaptação. Sem reflexão, não há consistência. 


O Brasil, na sua melhor versão, ensina a avançar. Portugal, na sua melhor versão, ensina a sustentar. 

Mas quando cada um insiste em operar apenas no seu tempo, o resultado não é equilíbrio, é fricção. 

Organizações que trabalham entre os dois contextos precisam de fazer algo que raramente fazem: tornar explícita a expectativa de tempo. 


O que é “urgente”? O que pode esperar? Quando é que decidir rápido é vantagem? e quando é que é risco? 

Porque “urgente” não é um conceito absoluto. 


É cultural. 

E talvez esteja na altura de dizer isto de forma direta: não é o outro que está no ritmo errado. 

É a nossa incapacidade de ajustar o ritmo em conjunto que está a falhar. 

No fim, não ganha quem decide mais rápido. Nem quem decide melhor. 

Ganha quem consegue alinhar o tempo da decisão com o contexto certo. 

E isso (desse lado e deste lado do Atlântico) continua a ser muito mais raro do que devia. 


 

Pedro Ramos


Comentários


©2024 Revista do Villa    -    Direitos Reservados

Política de Privacidade

bottom of page