"A Metamorfose", a partir da obra de Franz Kafka, faz temporada de estreia no Teatro III do Centro Cultural Banco do Brasil Rio de Janeiro.
- Alex Gonçalves Varela

- há 6 dias
- 4 min de leitura
Escrito e dirigido por Jopa Moraes, o espetáculo é a nova criação do coletivo Anêmona Teatro, e materializa em cena o inseto gigante imaginado pelo escritor de Praga.

Kafka consegue como ninguém descrever o que perturba a existência moderna porque incute às metáforas um peso concreto — não estabelecendo comparações de "como" ou "tal qual", mas deformando a realidade que se apresenta, aproximando definitivamente as pessoas das bestas que em suas paranoias mais sombrias elas suspeitam ser. E assim, sem cerimônias, Kafka dá start a seu texto mais célebre, "A Metamorfose", entalhando na mente do leitor a imagem do jovem Gregor Samsa, um vendedor ambulante que acorda um belo dia transformado em um enorme e repulsivo inseto.
Essa nova adaptação para os palcos, criação do coletivo Anêmona Teatro, se passa em uma Cidade de Praga de clima tropical atlântico. Logo, é e também não é a história que tanta gente conhece.
Escrita e dirigida por Jopa Moraes, abre mão da narração em terceira pessoa e dramatiza os acontecimentos da novela, potencializando as demais personagens e construindo ações físicas que dêem contorno a seus dilemas. Mantendo-se fiel a ordem de acontecimentos da trama, a dramaturgia ressalta o humor desconcertante de Kafka, tantas vezes escondido por trás de sua fachada austera.
Essa é a história da família Samsa tentando sobreviver e se manter unida perante uma irremediável metamorfose. Por um lado, há carinho pelo jovem, principalmente por parte da irmã mais nova, mas há, também, uma constante e crescente sensação de mal-estar com sua presença. Para o pai, a mãe e a irmã, a conta parece não fechar.
Sem o dinheiro que ele trazia para a mesa, o esforço para manter viva e segura a colossal barata que agora é Gregor vai pouco a pouco deixando de fazer sentido. Em tempos em que se debate no Brasil as consequências da escala 6x1, a história desse clássico parece falar diretamente com a gente.

Afinal, quando Gregor Samsa acorda de sonhos intranquilos e percebe sua transformação, o primeiro pensamento que cruza sua mente é que precisa ir trabalhar, mesmo que ainda nem saiba comandar corretamente suas patinhas.
Com sua prosa seca e impiedosa, o escritor de Praga é taxativo — para o jovem caixeiro-viajante não existe e nem existirá vida além do trabalho. No jogo proposto por Jopa, o palco é terreno de materialização das imagens perturbadoras criadas por Kafka.
Através de um figurino que mistura indumentária e manipulação de bonecos, concebido pela figurinista Dimi Rumbelsperger e construído pelo aderecista Alex Grilli, o monstruoso inseto aparece de forma concreto aos olhos do público. Vivido por Vitor Schei, explorando a gama do arsenal físico do ator, somos
expostos à rotina perturbadora de Gregor, descobrindo como habitar sua nova carapaça. Assim, o choque recebido pela família (Larissa de Paula, Nayane Ficher e Rafael Nasária) aparece sem enfeite nenhum, fugindo dos simbolismos que aproximam a história de um melodrama.
O verdadeiro julgamento se dá na cabeça de cada um, que, presenciando as escolhas impossíveis que as personagens são obrigadas a tomar, talvez possa se perguntar, como sugere Clarice Lispector: "eu sou um monstro ou isto é ser uma pessoa?"
Sinopse
A família de Gregor o vê como uma praga dentro de sua própria casa. O curioso é que Gregor Samsa, antes de se transformar em um enorme e repulsivo inseto, quase não parava em casa. Era um vendedor ambulante e passava o tempo todo em trânsito, dormindo em trens sacolejantes e hotéis vagabundos. O jovem também era — e definitivamente não é mais — o arrimo de seu núcleo familiar.
Essa é a história da família Samsa tentando sobreviver e se manter unida perante uma irremediável metamorfose. Até onde alguém se transforma e permanece sendo quem é? Por quanto tempo se pode amar alguém que não te dá nada em troca?
'A METAMORFOSE' - Foto: Rafael Mollica
A Metamorfose
a partir da obra de Franz Kafka
Direção e Dramaturgia: Jopa Moraes
Elenco: Vitor Schei, Larissa de Paula, Nayane Ficher e Rafael Nasária
Figurinos: Dimi Rumbelsperger
Iluminação e Cenografia: Jopa Moraes
Direção Musical: Gustavo Gomes
Projeto Gráfico e Edição de Vídeos: Rafael Nasária
Dramaturgismo: Mateus Sabato
Fotos e Captação de Vídeo: Rafael Mollica
Bióloga no Set: Luiza Mout
Indumentária Inseto: Alex Grilli
Máscaras Pesadelo: Chris Igreja
Preparação Corporal: Vitor Schei e Jopa Moraes
Assistência de Cenografia: Nayane Ficher
Catering Ensaios: Larissa de Paula e Dimi Rumbelsperger
Assessoria de Imprensa: Malu Selonk
Produção: Anêmona Teatro
Serviço:
“A Metamorfose”
a partir da obra de Franz Kafka
Direção e dramaturgia: Jopa Moraes
com Anêmona Teatro
Temporada: 16 de julho a 02 de agosto de 2026
Dias e horários: Quinta a domingo, às 19h
Valor do ingresso: R$ 30 (inteira) e R$15 (meia-entrada) à venda na bilheteria do CCBB
e no site bb.com.br/cultura.
Duração: 80 minutos
Classificação: 14 anos
Centro Cultural Banco do Brasil – Teatro III
Rua Primeiro de Março, 66, Centro, Rio de Janeiro/RJ
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Alex Varela







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