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LUSO-BRASILEIRA

REVISTA DO VILLA

Luso-Brasileira

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Pedro Ramos: Luanda não se visita. Luanda confronta.

Há cidades que nos recebem. E há cidades que nos testam. Luanda é, sem qualquer dúvida, uma cidade que nos testa constantemente.


Imagem: Pedro Ramos - Foto: Arquivo pessoal
Imagem: Pedro Ramos - Foto: Arquivo pessoal

Chegar a Luanda é entrar num ritmo que não pede licença. Um trânsito que parece caótico, mas que revela uma coreografia própria (estou a ser simpático, pois é mesmo caótico, porém, ninguém parece importar-se com isso). Um calor que não é apenas climático, é humano. Uma energia que mistura sobrevivência, ambição e uma criatividade que nasce, muitas vezes, da escassez.


Mas quem se fica pela superfície, pelos engarrafamentos, pelos contrastes sociais ou pela aparente desorganização, não percebe absolutamente nada do que Luanda realmente é.

Luanda é, acima de tudo, gente.

E que gente.


Foto: Pedro Ramos
Foto: Pedro Ramos

Uma das maiores ilusões de quem chega a Angola é pensar que vai encontrar um país em “desenvolvimento”. Angola não está em desenvolvimento; está em transformação constante, muitas vezes sem manual, sem rede e sem tempo para teorias importadas.

Aqui, o improviso não é falta de planeamento.

É inteligência adaptativa.


Há algo profundamente fascinante na forma como os angolanos vivem a vida: com intensidade, com humor e com uma capacidade rara de reconstrução. Num mesmo dia, alguém pode negociar um contrato, resolver três problemas logísticos impossíveis e ainda ter tempo para rir (a sério !) no meio do caos.

E isso diz muito sobre liderança.

Sim, liderança.


Porque Luanda é uma escola viva de liderança em contextos extremos. Não aquela liderança de PowerPoint, cheia de modelos bonitos e esquemas importados. Mas uma liderança real, que acontece na pressão, na incerteza e na necessidade.

Aqui, lidera quem resolve. Quem conecta.

Quem se adapta.

E talvez seja por isso que tantas organizações internacionais falham quando chegam a Angola: tentam aplicar modelos fechados num contexto que exige abertura total. Tentam controlar quando deveriam compreender. Tentam ensinar quando ainda não aprenderam a escutar. Tudo numa constante reconstrução (ou será reinvenção?)

Há também um traço cultural que merece atenção: a relação com o tempo.


Foto: Pedro Ramos
Foto: Pedro Ramos

Em Luanda, o tempo não é linear: é relacional.

Os negócios fazem-se com pessoas, não com agendas. 

Mas há mais.

Luanda é uma cidade de contrastes que obrigam à reflexão. Entre riqueza e escassez. Entre modernidade e tradição. Entre velocidade e pausa. E esses contrastes não são apenas visíveis, são sentidos.

E talvez seja esse o maior desafio para quem chega: não julgar demasiado rápido. Luanda exige humildade intelectual.

E coragem.

Coragem para desaprender.

Coragem para aceitar que há múltiplas formas de fazer bem.

Coragem para reconhecer que, muitas vezes, aquilo que chamamos “caos” é apenas um sistema que ainda não compreendemos.

Para quem trabalha em liderança, gestão ou desenvolvimento organizacional, Luanda é um laboratório extraordinário. Um lugar onde conceitos como resiliência, adaptabilidade e inteligência emocional deixam de ser “palavras vazias” e passam a ser competências de sobrevivência.

E talvez seja por isso que quem realmente conhece Luanda nunca sai igual.

Sai mais questionador. Mais atento. Mais humano.

Porque, no final do dia, Luanda não muda apenas a forma como vemos os negócios.

Muda a forma como vemos as pessoas.

E isso, para quem lidera... muda tudo! 


 

Pedro Ramos


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