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LUSO-BRASILEIRA

REVISTA DO VILLA

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O Morro dos ventos uivantes: nada é limpo aqui

O novo O Morro dos Ventos Uivantes acertou onde muitos remakes tropeçaram: não tenta ser atual, ele tenta ser verdadeiro e isso muda tudo!



A fotografia é de uma beleza quase dolorida até o fim. Tudo é rigorosamente enquadrado, com uma paleta de preto, branco e vermelho que atravessa a narrativa com força e elegância. Se você gosta de organização como eu, vai adorar os planos simétricos, os personagens centralizados… É precisão nível cirúrgica, mas o melhor é que não é só bonito: é linguagem. E a trilha sonora faz justo o contrário, é leve, delicada, sem invadir, só envolvendo.

 

Tecnicamente, é um filme perfeito. A direção conduz com segurança, sem as saídas fáceis que todos detestamos. A montagem caprichou respeitando o tempo do drama sem pressa. O filme não entrega emoção chata mastigada. Não facilita, precisamos pensar ao assistir.


 

Heathcliff (Jacob Elordi) impressiona pela humanidade crua. O garoto que passou por tanta maldade, ele não pede empatia, arranca quase que a fórceps. Existe uma dor ali nele que não se explica, só se sente. Quero destacar um ator que eu não conhecia: Martin Clunes, que faz o senhor Earnshaw, pai da protagonista. Que potência! Em poucos minutos de tela, quase roubou o filme. Catherine Earnshaw  é praticamente uma anti-heroína interpretada por Margot Robbie. Ela faz tudo errado, tudo! E, ainda assim, a gente torce por ela; não sei bem por que. Talvez haja algo reconhecível naquela impulsividade, naquela falha trágica, naquela toxicidade toda.

 

O filme não romantiza: ele expõe. Tanto Catherine como Heatcliff são tóxicos, atravessam o outro e se ferem de um jeito assustador. E é nesse ponto que o longa ganha densidade. Há uma camada quase psicanalítica, o desejo como falta, como excesso, como repetição de um vazio que nunca se preenche mesmo com os maiores descontroles possíveis.

 

A pergunta ficou comigo foi: até que ponto a gente também não é assim?

No roteiro, não há concessão. É uma história sobre confronto, sobre obsessão, desejo. Tentar enquadrar isso nos valores de 2026 é reduzir a potência desse drama escrito em 1846 por Emily Brontë, ainda atual assustadoramente.

 


Cláudia Felício (roteirista, escritora best-seller e crítica especializada em cinema)


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