Medicina Veterinária e Voluntariado: Compromisso que Transcende o Consultório
- Larissa Penido
- 4 de jun.
- 7 min de leitura
Atualizado: 5 de jun.
Conheça a ONG Veterinários com Asas, que ultrapassa fronteiras para ajudar os animais de comunidades e regiões remotas que não têm acesso à saúde básica.

Dois irmãos nutriam um sonho, “voar” para atender a todos os animais que precisam, independente de onde estão. Em 2019, Erick e Thays Rossignoli eram voluntários de uma ONG, que oferecia ajuda a diversas famílias no estado de São Paulo, quando perceberam que havia um grupo que carecia de uma ajuda mais especializada, os animais. Com isso em mente, a dupla fundou, durante a pandemia, a ONG Veterinários com Asas.
“A gente quer chegar aonde não tem acesso à saúde”, disse Thays, médica veterinária que interrompeu sua pós graduação para construir esse projeto com seu irmão.

O objetivo pelo qual eles têm lutado é ser referência social no bem-estar animal e na prestação de serviços veterinários em comunidades carentes e regiões remotas.
A primeira missão da ONG ocorreu há 5 anos em 7 Barras, cidade no interior de São Paulo. Com uma equipe de apenas 8 pessoas, 4 veterinários e 4 auxiliares, eles conseguiram castrar 93 animais em 48 horas.
Os voluntários que fazem a ONG acontecer. Thays e Erick explicam que a ONG, sem fins lucrativos, é construída a partir de doações de insumos e serviços com preços reduzidos. Erick, fundador da organização, afirma que a ONG Vet com Asas é feita por veterinários e é uma instituição que acolhe todos os voluntários que quiserem participar, o próprio Erick é exemplo disso, já que sua formação não tem ligação nenhuma com a área veterinária, é formado em Tecnologia da Informação.
Além da castração, a ONG também faz campanhas de vacinações, vermifugações, entrega de rações e alertas gerais para os tutores sobre a saúde de seus pets. Mas mesmo assim, é para todos voluntariarem-se sem medo, porque não é necessário ter conhecimentos médicos avançados ou se quer estar envolvido com a área veterinária. “Sempre tem espaço para quem quer estar lá e quer ajudar”.
Uma ação que ficou marcada na memória dos fundadores da ONG foi a que ajudou 8 cachorros de Mogi das Cruzes. uma senhora ligou para Erick implorando por ajuda, porque se eles não fossem castrados, a senhora e os caninos seriam expulsos da casa que moravam dentro de um sítio. Erick conta que receber essa ligação cortou o seu coração, mas depois de ver os cachorros saudáveis e a senhora pulando de alegria e agradecendo, ele admite que não tem preço ver uma cena como essa. Casos como esse, reafirmam a importância do cuidado com os animais, que beneficiam não só eles, mas também seus donos.
Um dos voluntários é Theo Ribeiro, jovem estudante de medicina veterinária, que desde o ensino médio já participava regularmente das missões da ONG. O primeiro contato de Theo com a ONG aconteceu ano passado, na época em que estudava para os vestibulares. A primeira vez que participou de uma campanha foi por querer saber se era aquilo mesmo que ele queria pra sua vida e ele também afirma que sempre teve a veterinária como primeira opção. E participar da ONG acabou sendo tão bom que ele bateu o martelo para decidir seu curso, seguiu esse caminho na faculdade, e se tornou um voluntário regular da instituição.
“O amor que eu tinha pelos animais e a fé que eu tinha na humanidade se fortaleceu” diz Theo sobre a atuação da ONG. Ele participa regularmente das campanhas, geralmente no pré-operatório das castrações, em especial na parte da MPA, que é a medicação pré anestésica. O jovem voluntário conta que aprendeu muito sobre as diferentes áreas da veterinária, cirurgia, pré e pós-operatório, entre outras, e também sobre o esforço que envolve o voluntariado.

Como a ONG nasceu para levar tratamentos de saúde a áreas remotas, diversas das campanhas ocorrem em aldeias indígenas, e Theo lembra com carinho de uma de suas experiências nessas. Ele conta que, durante a última campanha, que ocorreu numa aldeia ribeirinha, os voluntários ficavam numa base do outro lado do rio, e os animais tinham que ser levados de barco. “Já tava acabando a campanha e eu tava ajudando no pós-operatório. Só tinha mais um cachorro em cirurgia e 3 no pós-operatório. E um desses 3 começou a convulsionar.” contou Theo.
O jovem relata que o que se seguiu foi um tanto caótico, com ele, Thays e mais 2 veterinários tentando ajudar, o Diazepam acabando na hora H, ele tendo que correr até o carro para buscar mais, acupuntura e mais remédio. No final, deu tudo certo, “A gente não deixou ele voltar sozinho, então voltamos de barco com ele e entregamos para a tutora, acho que ela nem falava portugues direito”. Apesar do caos, Theo diz que foi um baita aprendizado, e mostra o quão longe, figurativa e literalmente, os voluntários vão para ajudar os animais e as suas famílias.
O voluntário também afirma que o que você ganha lá,nenhum curso vai te ensinar. Ele mesmo não sabia nada sobre a parte prática da veterinária mas tinha o que era o mais importante, a vontade de ajudar o próximo, em especial aos animais. E apesar do trabalho admirável desses voluntários, e do desejo de expansão da ONG, eles enfrentam uma dificuldade muito grande, que foi bem definida por Theo ao falar sobre o futuro da instituição: “Tem muitos projetos que acabam ficando só no papel pela questão financeira”.
Os obstáculos
“A gente não tem fundos fixos, vivemos de doação” contou Erick. Como presidente, ele também cuida da parte administrativa e confidencia que é um pouco difícil conseguir verba para as campanhas, já que a ONG não recebe verba pública e não tem patrocinadores. A luta de conseguir doações é grande, já que muitos não engajam na causa, e não apoiam pois não há incentivo fiscal para a causa animal.
“Cada castração, em média, fica R$100 a R$120
por animal”.

Para além do peso da questão monetária, o presidente Erick explica que a logística das missões também é complicada. Eles precisam garantir que todo o material chegue e não falte nenhum medicamento ou insumo, outros sim, durante a ação precisam que o tempo esteja estável, porque quando chove, atrapalha os atendimentos.
Já houveram casos em que toda a operação da campanha teve que ser remanejada por conta que chovia dentro do espaço onde estavam atendendo.
Além disso, por vezes ocorrem imprevistos com os voluntários selecionados, que acabam não comparecendo e sobrecarregando os outros. Também há a logística de carro, já que os lugares das campanhas ficam distantes, e a ONG visa acomodar os voluntários o máximo possível. Às vezes os carros comuns não chegam e eles precisam ver se a comunidade pode ir até um ponto de encontro. Como ocorreu em uma aldeia, que para chegar é apenas de barco, e levar toda a estrutura não seria possível.
E o mais importante, o cuidado com os diferentes animais diverge. Erick conta: “Precisamos fazer os atendimentos sincronizados, primeiro os gatos e depois cachorros, pois os gatos se estressam mais rápido.” Contudo, os fundadores sempre se preocupam com o bem-estar dos voluntários, e acreditam que isso afeta o serviço prestado. “A gente tenta fazer o ambiente ser o mais acolhedor possível porque assim a gente vai estar levando um acolhimento ainda maior para as famílias e pros animais”.
“Divulgação ajuda muito” relata Thays. Ela atua como professora, para além do trabalho na ONG, e faz questão de envolver seus alunos com o voluntariado o máximo possível. E, a fim de conseguir verba, a instituição faz a venda de bottons e camisetas personalizadas, cujo valor é direcionado para os custos das campanhas; além de manter parcerias, como com a empresa Petz, que oferece o cupom VETCOMASAS, que dá 10% de desconto nas compras no local, em troca de 7% do valor dessas, que vai para a instituição.
O bater das asas
“Veterinários com Asas é um ato de amor”. A ONG já atendeu mais de 1200 animais contando todos os serviços prestados, e sua especialidade, a castração, já atendeu mais de 650 animais. A instituição nasceu como uma forma de olhar para famílias que necessitam de auxílio, em lugares onde a medicina veterinária não chega, de uma outra forma. Cuidando da saúde dos animais para garantir toda uma família saudável.
Estima-se, segundo a ABINPET, que existem um total de 167,6 milhões de pets no Brasil.
E ainda, sabe-se que cerca de 6 em cada 10 doenças infecciosas que acometem as pessoas são transmitidas a partir dos animais, incluindo os domésticos, segundo os Centros de Controle e Prevenção de Doenças (CDC) dos Estados Unidos. Por isso, a atuação de ONGs como essa se mostram tão importantes.
“A gente tem vários projetos dentro da instituição que causam impacto social” relata Erick, que estabeleceu como objetivo da ONG a prevenção de doenças zoonóticas e a conscientização social sobre o bem-estar animal e do meio ambiente. Para além do trabalho direto com os animais, os irmãos pretendem expandir o negócio, com a missão de que mais pessoas se envolvam com o trabalho veterinário. Eles querem também pensar na parte educacional, porque a educação move montanhas”.
O principal é o voluntário estar ali de corpo e alma presentes, que se doe, de coração aberto.
A 5 anos nascia o fruto de um sonho, que continua firme e forte, e que mais importante, vem do coração e da caridade.

“Ninguém tá aqui por obrigação. Todo mundo vem de coração aberto”.
Erick e Thays contam que não é fácil, são sábados e domingos abdicados de estarem descansando ou com a família, porém mais de 250 pessoas ativamente fazem a escolha de se voluntariar.
“Asas” surgiu para eles com um objetivo de não ser uma ong de um lugar só, e de terem capacidade de voar para atender a todos que precisam independente de onde estão. A ONG Veterinários com Asas cuida da saúde pública brasileira, levando carinho, cuidado e aprendizado a todos aqueles que toca.
A vida dos animais é muito curta perante o tempo de vida dos humanos, os cuidados com eles são fundamentais para terem um legado de sua vida.
Larissa Penido, Paola Costa, Catharina Scala

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