Grupo Villarino: a trajetória de seu fundador
- Flavio Santos

- 23 de mar.
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Luiz Villarino Perez chegou ao Brasil em 1921 com apenas 16 anos de idade. Oriundo da cidade de Ginzo de Limia, província de Ourense, Espanha. Filho de Isabel Perez Villarino e do político Leonardo Villarino Perez, não quis seguir os estudos superiores nem o negócio de compra e venda de gado que seu pai montou para ele e seu irmão mais velho. Talvez, fugindo do recrutamento militar obrigatório, em consequência da desastrosa Guerra do Rif, uma tentativa neocolonialista espanhola. Exatamente no ano de 1921, os espanhóis sofreram sua pior derrota, em Annual. Muitas famílias espanholas mandavam seus filhos para o exterior, evitando a morte certa em Marrocos.

Desembarcou no porto do Rio no dia 12 de outubro daquele ano. Foi recebido por contatos da família, como Camilo Cuquejo, gerente do Café Colombo, estabelecimento da rua Nova do Ouvidor, n.º 3, esquina com rua Sete de Setembro. Também recebeu o apoio do capitalista Víctor Fernández Alonso, futuro dirigente da Companhia Novo Mundo, de seguros marítimos e terrestres, da Rua General Câmara, n. 71. No início da década de 1920, Alonso era comissário e consignatário de gêneros alimentícios, com uma firma na rua do Ouvidor, n.º 106. Um detalhe curioso: a firma V. Fernandes & Cia, da qual Alonso foi sócio, explorava a venda de bilhetes de loterias e apostas do “jogo do bicho”. Um dos seus sócios era um forte “banqueiro” do jogo, antes da proibição.




A colônia espanhola do Rio daquele tempo reunia-se, especialmente, no Centro Gallego, da rua Visconde de Rio Branco, n.º 53, na Casa de Cervantes, da rua da Constituição, n.º 38, e no salão nobre do prédio da Beneficência Espanhola. Foi lá, neste último, numa tarde, que Villarino conheceu Aurélia Gonzalez Alvarez, de apenas 13 anos, e com quem se casou em 20 de outubro de 1927. Dona Aurélia era filha do industrial Casimiro Gonzalez Garcia e tocava piano no Centro Gallego. Os dois tiveram um filho único, Eugênio Gonzalez Villarino, nascido em 15 de setembro de 1928. Nos primeiros anos na cidade, morou na casa de uma família espanhola na rua Silva Manuel, atual rua André Cavalcanti, no centro da cidade.




Seu primeiro emprego foi de ajudante de garçom na então famosa confeitaria Alvear & Cia. Situada no número 118 (em outras fontes, 114) da elegante Avenida Rio Branco, perto do antigo prédio do Jornal do Brasil. A Casa Alvear era frequentada pela elite da capital, que gostava de comparecer ao chá das 5 horas. Também era o ponto das melindrosas e dos almofadinhas, que se refrescavam com os sorvetes da casa. A coluna Tópico do Dia, do Jornal do Commercio do Rio de Janeiro, descrevia o ambiente da casa em 1916:
“o Alvear tornou-se um pon
to de encontro das rodas que procuram ser elegantes (cousa aliás que nem sempre se consegue). Assim, ficará na história da cidade como o Carceller, os Castellões, o Paschoal e a Colombo, cada um representando uma quadra social e dos costumes de uma época.”
O escritor e jornalista Benjamim Costallat, frequentador da confeitaria naqueles “anos loucos", lembrava bem do jovem Villarino. Costallat, que ganhou um artigo na Revista do Villa, gostava de tomar o sorvete Melle Cinema, batizado em homenagem ao seu romance decadentista. Já com seus 59 anos, em 1956, o escritor lembrava de como pagava o serviço do “rapazote espanhol sorridente e trabalhador” com gorjetas generosas.



Villarino começa sua vida empresarial com o comércio de doces, chocolates e guloseimas – uma bombonière. Em acordo com os donos da casa Alvear, montou uma vitrine numa das portas da confeitaria. Era o ano de 1924. Após 3 anos de vendas e lucros, abriu o Café Acadêmico Limitada, localizado na rua do Catete, n.º 236, esquina da antiga rua Carvalho Monteiro, atual rua Arthur Bernardes, de frente para a antiga Faculdade Nacional de Direito.


Da década de 30 até o ano de 1942, entrou e saiu de diversas sociedades, principalmente bares e leiterias. Desfez uma parceria com Oscar Camillo da Silva Ramôa, na firma Camillo & Villarino, em 1934. Foi sócio do Café e Bar Villarino Limitada, em abril de 1935. Em dezembro daquele ano, entrou em sociedade com outros comerciantes na Leiteria Nevada, da rua Bittencourt Silva, n.º 1-B. No ano seguinte, abriu um botequim na rua 13 de maio n.º 41, com capital de 10 contos. Ainda no mesmo ano, sob a firma Montoro & Cia. Limitada, com José Montoro, abriu um botequim na rua da Carioca, n.º 65, com o capital de 65 contos. Na rua 13 de maio, no n.º 48, foi sócio da leiteria L. Villarino & Cia. Limitada, em 1937. Um ano depois, entrou em sociedade de mais um botequim, o Ribeiro & Villarino Limitada, na Avenida Rio Branco, n.º 64. Ao fim, preferiu ficar apenas com as Casas Pardellas, intituladas as “Rainhas do Whisky”, situadas no centro do Rio, na rua da Assembleia n.º 76 (depois, rua México, n.º 148-D) e a outra na rua de São José, n.º 120. E ainda, uma filial na Avenida Nossa Senhora de Copacabana, esquina com Siqueira Campos. A última whiskeria Pardellas fechou em 1984. O ponto foi vendido para o Banco Itaú, por 500 milhões de cruzeiros. Além das whiskerias, a Casa Villarino, sua preferida, localizada na esquina das avenidas Calógeras e Presidente Wilson.



A revista Manchete, na coluna Pelas Esquinas da Noite, de meados da década de 1950, pintava um panorama dos bares da Esplanada do Castelo e adjacências. Depois do trabalho, era a hora do “aperitivo”. As opções eram o Juca's Bar, do Hotel Ambassador, com ar-condicionado, e o bar do Hotel Serrador, frequentado por políticos e escritores. Já O Grande Ponto, fornecedores dos carros-restaurante⁶ dos trens da Central do Brasil, ficava na rua Pedro Lessa, n.º 31-A, com filial na rua Graça Aranha, n.º 81-B, era o local dos jornalistas, funcionários públicos, policiais e bicheiros... O Lidador era a parada dos diplomatas e homens de negócios.

O Bar Villarino era um deles. Lugar das “doses generosas de whisky”, segundo Costallat. Descrito por seus frequentadores como um bar simples, no fundo de uma casa de comestíveis. Ruy Castro, na resenha que fez para a revista Manchete, em 1990, do seu livro Chega de Saudade, lembra que Vinícius de Moraes formou a dupla com Tom Jobim nas mesas do Bar Villarino, descrito por ele como “bar-mercearia”. Em outro depoimento posterior, em 1983, para a mesma revista, Tom Jobim se recorda de ter encontrado Vinícius de Moraes primeiramente no Clube da Chave, no posto seis. Porém, o encontro oficial foi em 1956, apresentado por Lúcio Rangel, no bar Villarino, “onde todo mundo se reunia no fim do dia, com a desculpa de esperar o trânsito melhorar”.

Em meados da década de 1950, o bar Villarino estava na “ordem do dia”. Segundo o tabloide da época, FLAN, o bar era a “nova mania dos intelectuais”. Era o reduto de sambistas, do povo do rádio, do teatro, da política e dos jornais. Juscelino frequentou, assim como Haroldo Barbosa. Ary Barroso dizia fazer parte da “República Independente do Villarino”. A lista de frequentadores famosos era extensa: Sílvio Caldas, Antônio Maria, João Donato, Edu da Gaita, Humberto Teixeira e Vadico, parceiro de Noel Rosa, Fernando Lobo, Sérgio Porto, Paulo Mendes Campos, Flávio de Aquino, Simeão Leal e o poeta John dos Passos, Millôr Fernandes, Lúcio Rangel, Aloísio Oliveira e Luís Jatobá.
Em 1953, foi criada a Construtora e Imobiliária Villarino, com endereço na rua México, n.º 148, sobreloja. Diversos empreendimentos na zona sul do Rio foram vendidos pela firma.

A fortuna de Villarino
começou a ser notada pelos jornalistas quando comprou o prédio do Cine Metro, do Passeio Público, dos herdeiros da família Armbrust, por 51,5 milhões de cruzeiros, em meados de 1956. Segundo o próprio Villarino, pagou 20% à vista e o restante, incluindo os juros, no prazo de 4 anos. Por ocasião da compra do edifício, o colunista do jornal Última Hora, Edmar Morel, em uma coluna de junho de 1956, o entrevistou e o descreveu da seguinte forma: “(...) um sujeito simpático. Não tem cara de milionário, tampouco de espanhol. Parece muito mais um professor catedrático, muito experiente e senhor de si”. O depoimento descrito linhas acima, de Costallat, é dessa época. Surpreendido, escreveu o artigo “O Homem que comprou o Metro”, no Jornal do Brasil.


Mas o grande salto foi dado em 11 de dezembro de 1962. Em uma assembleia de acionistas, realizada na rua Araújo Porto Alegre, n.º 56, sobreloja, com a presidência de Eugênio Gonzalez Villarino, reuniram-se a diretoria e os acionistas do Banco Bhering S/A. A diretoria do velho banco achou por bem aumentar o capital de 15 milhões de cruzeiros para 40 milhões, representados por 1000 ações ordinárias e ao portador. Ficou acertado que o banco passaria a se chamar Banco Villarino S/A. Luiz Villarino entrou com o aporte de capital de CR$ 7.249.500,00, representados por 14.499 ações, sendo eleito presidente do banco. Provavelmente, a primeira agência foi inaugurada em julho de 1963, na rua das Laranjeiras, n.º 197-A. No ano seguinte, foi aberta a nova matriz, na rua México, n.º 148, lojas C e D, esquina com a Avenida Almirante Barroso. No 3.º aniversário da sociedade, a Tijuca ganhou uma agência, na rua Haddock Lobo, n.º 332. A 4.ª agência bancária foi aberta no bairro de Copacabana, na rua Barata Ribeiro, n.º 255-B. Infelizmente, em abril de 1971, os acionistas e a diretoria acharam conveniente passar o negócio adiante. A instituição foi incorporada pelo banco Bradesco, em mais um capítulo da longa e antieconômica concentração bancária brasileira.



No biênio 1967-1968, foi agraciado pelo presidente Costa e Silva com a Medalha de Honra da Ordem do Mérito do Trabalho, com cerimônia que contou com a presença do ministro Jarbas Passarinho, no Ministério do Trabalho, no bairro Castelo. No ano seguinte, ganhou a Medalha de Grande Comendador da Espanha, concedida pelo General Francisco Franco, e o título de Cidadão Carioca.

Em 1968, foi a vez do tradicional Itajubá Hotel, na rua Álvaro Alvim, juntar-se às Organizações Villarino. O Edifício Brasil, onde fica instalado o hotel, já era de propriedade do grupo. O prédio foi inaugurado em 1928 e foi por algum tempo, quando o local se chamava “quarteirão-Serrador”, o maior arranha-céu do Rio. Villarino resolveu manter aberto o empreendimento. Declarou, ao jornal Diário de Notícias:
“(...) não iríamos deixar no desemprego toda essa gente que há longos anos, decididamente, presta seus serviços à firma e também não seríamos justos se privássemos a Guanabara de um dos seus mais tradicionais hotéis”.
Os paulistas, com razão, costumam festejar seus grandes empreendedores, muitos deles estrangeiros. No Rio de Janeiro, ainda é preciso resgatar a memória dos que suaram para construir a segunda maior economia do país. No depoimento a Edgar Morel, de 1956, Villarino disse que se achava um sortudo, pois teria ganhado três vezes na loteria, numa delas pelo bilhete n.º 4.795. Na verdade, a sorte é fruto do trabalho duro. O galego e tricolor Luiz Villarino Perez faleceu no dia 8 de novembro de 1983.




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*BNRJ = Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro;
*Este é um artigo revisado e ampliado do original de fevereiro de 2021
Flavio Santos

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