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LUSO-BRASILEIRA

REVISTA DO VILLA

Luso-Brasileira

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Galeria Tragicômica de Notabilidades da Corte do Rio de Janeiro.

Todas as cidades do mundo têm sua galeria tragicômica de celebridades, mesmo que involuntárias. A maioria desses personagens vive de biscates, caridade alheia, pequenos golpes e sem moradia fixa.

Tipos extravagantes, vítimas da má sorte, do vício, de problemas mentais, da falta de assistência pública, são alvos recorrentes do populacho, das molecagens e da polícia. Na corte do Rio de Janeiro do século XIX, não foi diferente. Ela também tinha sua coleção de figuras que perambulavam pelas ruas, estabelecimentos comerciais e gozavam de uma popularidade bem particular: tinham fãs ou haters?



Dá cá um vintém, camaradinha!” Era assim que Claudino Alves de Lima, o padre Kelé, figura folclórica das ruas do Rio de Janeiro entre os anos de 1840 e 1870, abordava os possíveis “ofertantes”. Se apresentava em público vestido com casaca, portando um maço de papéis com inscrições e subscrições misteriosas, calçado com sapatos de verniz e meias pretas. Era visto nas imediações das igrejas e conventos.

Chegou a receber a ordem de tonsura e a vestir as vestes talares, até ser proibido pelo bispo. Dificilmente tinha seu pedido recusado: “Um votinho, pelo amor de Deus!” Tinha problemas mentais, mas não escapava da chacota dos moleques (a “garotagem”) e das maldades humanas. Em resposta aos menores, saía em carreira, perseguindo-os, mas pouco podia contra a maldade dos

adultos. Em 1844, foi ferido com uma tijolada na cabeça, por um entrevero com um tal de Chico Telles, agressor que acabou preso. Foi interpretado jocosamente no teatro, em 1859, quando viu seus trejeitos ridicularizados no Teatro São José. No antigo largo da Lapa, pelos idos de 1873, existia um teatrinho de bonecos. Padre Kelé era uma das personagens, dos tipos interpretados nas peças.

A polícia pouco o importunava, apenas em 1855, quando foi preso por vagabundagem. Durante a implantação do imposto do vintém, no final de 1879, os jornais apelidaram o novo tributo de “Imposto do Camaradinha”, em sua homenagem. Não se sabe onde e quando nasceu, mas morreu em junho de 1875, no Asilo dos Mendigos da Corte. Antes, ficou internado no hospício de D. Pedro II. Deixou uma série de afilhados desamparados.



“Urso, urso, olha o Urso!”, gritava a canalha miúda na rua do Ouvidor. O alarido era em razão da passagem de José Fernandes de Castro Urso. Nascido no Catumbi, em maio de 1830, Urso ficou conhecido no final da década de 1850, pelo ofício de vendedor de bilhetes de loteria na praça do Rio de Janeiro: 


“Compram cautelas? Vigésimos da loteria de Nictheroy? Todos premiados… Chega, freguês!”. “Minhas senhoras: a grande! Anda amanhã… Fique com um unzinho… É de palpite!” 


Era o nosso Quasímodo: um ombro mais alto que o outro, cabeça em forma de cone, pés e mãos gigantes e desproporcionais. Fazia sua propaganda, comparecendo às redações dos jornais, dizendo que o grande prêmio de uma loteria saiu de um bilhete vendido por ele. Quando isso acontecia de verdade, o ganhador o agraciava com uma pequena porcentagem do prêmio. 


Nos teatros, comandava uma claque remunerada, que frequentava os setores populares e importunava o público culto com palmas excessivas e fora de hora. Castro Urso tinha também a fama de ser um comilão lendário.


As pessoas pagavam para vê-lo ingerir grandes porções de empadinhas e outros salgadinhos com voracidade e rapidez, que causavam espanto em uns e repugnância em outros. No início da década de 1870, emprestou seu nome para um dos famosos "livros de sorte” ou “passatempos”: a “Carteira de Castro Urso” era um livreto com sua biografia, acompanhado de cartões com perguntas e respostas, muito populares entre os apostadores. 



Consta que, finalmente, conseguiu comprar um imóvel na rua do coronel Figueira de Melo, em 1884. Um ano depois, humilhação última, viu sua face reproduzida em máscaras de Carnaval, vendidas no comércio por  mil réis a unidade. Quero eu crer que tenha recebido os royalties… Antes da abolição dos escravizados, alforriou seus quatro cativos. Dizia, já convencido, que a escravidão era “indecente”. Morreu em 20 de outubro de 1889.



Outra figura conhecida do Rio antigo era o Príncipe Natureza. Um sujeito que dominava a arte da oratória, de uma forma muito particular, e se dizia do Conselho de Sua Majestade Fidelíssima Dona Maria II e súdito de Dom Pedro II. Naqueles tempos, a corte estava repleta de conferências e palestras sobre os mais variados temas. Era um evento popular. Sua figura, um senhor negro de bons modos, marcou a cidade nos últimos anos do século XIX pelas conferências no Teatro de Variedades, com apresentações cheias de teatralidade.

Católico apostólico romano, costumava iniciar suas pequenas notas de jornal  com a expressão: “Terra de Santa Cruz!” Quando se empolgava em suas palestras, a plateia gritava: “Beba água!”, e ele então fazia uma pausa para baixar a adrenalina. No passado, o príncipe foi um escravizado de propriedade dos frades de São Bento e, após ser  libertado, trabalhou em uma repartição da Armada Imperial. 



Sua “Arteza” Dom “Miguer Manoer” Pereira da Natureza Sová-Gorá Vange, como se apresentava, foi um príncipe africano de nação desconhecida - ou assim ele acreditava. Natureza não tinha tema preferido: poderia discorrer sobre política interna ou externa, o problema da emissão de papel moeda, filosofia, espiritismo, fazer a crítica do romance O Primo Basílio… Suas conferências eram concorridas. No auge, mais de 2.000 pessoas compareciam às apresentações que rendiam aplausos e gargalhadas. Natureza morreu, provavelmente, entre o final de 1879 e o ano de 1881.


Chrispim Manoel da Paixão Sacramento era o nome verdadeiro de um infeliz conhecido como o “Pai da Criança”. Nascido em 1861, foi descrito como um negro baixo, gordo, petulante, desbocado, bêbado e brigão.

Era uma das vítimas preferidas da “garotagem”, mas não se intimidava, trocava pedradas e pauladas com os moleques e com a polícia. Sua vida foi marcada pela saída e entrada de instituições correcionais e prisionais. Em 1879, ainda jovem, foi recolhido à uma instituição para menores infratores no interior da corte. Andava pela rua do Ouvidor, “dando sortes” e era repreendido pela polícia. Em 1888, vendia jornais na mesma rua e supostamente agrediu um transeunte.

O agredido chamou a polícia. O guarda, ao tentar detê-lo, ganhou uma mordida e foi parar na enfermaria do Corpo Militar. Chrispim foi para o “xadrez” da 1.a estação policial. Numa das tentativas de integrá-lo à sociedade, em março de 1890, sentou praça no 1.º Batalhão de Artilharia de Posição com destino à uma guarnição do sul do Brasil. Rejeitado, foi deslocado para o 30.º Batalhão de Infantaria, mas o comando mandou dar baixa no serviço do Exército por “incapacidade psíquica”, em novembro do mesmo ano. Voltou a ser preso na Casa de Detenção em janeiro de 1892. No final da vida, solicitou aos amigos do “reduto”, na rua Frei Caneca, que o levassem de bonde para o hospital. Morreu em nove de dezembro de 1901, aos 40 anos, na 5.ª  enfermaria do Hospital da Misericórdia. Dias depois, o Jornal do Brasil publicou: “O Pae da Criança passou vinte annos a troçar da humanidade.



Cândido Domingos da Silva viveu no Rio de Janeiro na segunda metade do século XIX. O Bacharel, como ficou conhecido, era um sujeito pardo, de estatura mediana e  barba grisalha. Usava chapéu coco e sobrecasaca. Costumava carregar um maço de jornais ou um livro em estado imprestável. Chamava os jornalistas de “colegas” e visitava as redações de jornais, onde era chamado de Dr. Charcó. Andava sempre apressado por ter “muitos clientes” à sua espera.

Foi escravizado de propriedade de um médico da corte. No trabalho do consultório, aprendeu alguma técnica e o jargão da profissão para dar “consulta” aos mais chegados. Uma vez libertado das correntes, se misturou com os vadios, que o apelidaram de Príncipe da Lapa, bairro central onde circulava. 



Infelizmente, cumpriu 12 anos de prisão por matar um rival com um golpe de navalha. Na prisão, foi de cozinheiro a enfermeiro. Libertado novamente, agora envelhecido e alquebrado, e talvez com alguma perturbação mental, passou a pedir níqueis para a passagem do bonde rumo à faculdade, onde dava aulas imaginárias.

“Como vae, collega; tens ahi um nickel que me emprestes?” O Bacharel morreu em 15 de dezembro de 1901, dias depois do Pai da Criança. Aparentava 50 anos, presumíveis, quando faleceu em sua residência, uma pensão na rua da Misericórdia, n.º 19, sem assistência médica. Seu corpo foi remetido pela Delegacia da 1.ª Circunscrição ao necrotério da Capital Federal e enterrado no cemitério de São Francisco Xavier. Deixou de herança a sobrecasaca, a calça, o borzeguim estropiado e um chapéu cheio de furos.


É preciso guardar alguma precaução quanto às descrições, sujeitas ao preconceito da época e a exageros. Com o passar do  tempo, esses personagens viraram lembranças de tempos mais simples, nostálgicos.

Os contemporâneos eram cruéis com as caracterizações. Poderíamos falar do Philosopho da Praia, do Tangerina, da Maria Creoula, do Cidadão Policarpo, do Princesa Africana…


Em sua maioria, esses tipos eram ex-escravizados sem rumo e assistência. A verdade é que estavam sujeitos a todo o tipo de humilhações, crueldades e violências por parte da polícia ou de seus desafetos. A rua não perdoa.


*BNRJ = Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro


Flavio Santos


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