top of page
FB_IMG_1750899044713.jpg

LUSO-BRASILEIRA

REVISTA DO VILLA

Luso-Brasileira

luso-brasileira

De Espanha, Nem Bons Ventos… Nem Esquecimentos... Um Português Perdido (e Encontrado) na Andaluzia

Entre semelhanças surpreendentes e diferenças que encantam, uma viagem ao sul de Espanha desmonta antigos preconceitos e revela um destino que, por vezes, parece mais próximo de Portugal do que imaginamos.


Imagem: Urbanismo, Cidade, Andaluzia - Crédito: Manuel Alvarez
Imagem: Urbanismo, Cidade, Andaluzia - Crédito: Manuel Alvarez

De Espanha, nem bons ventos nem bons casamentos. Crescemos com este ditado como quem herda uma verdade antiga, repetida, e raramente questionada. Mas há viagens que nos obrigam a revisitar certezas. E a caminho da Andaluzia, essa frase começa rapidamente a perder força.


Porque o que encontramos no sul de Espanha não é um “outro”. É quase um espelho.

As semelhanças são desconcertantes. A começar pela luz — quente, intensa, quase emocional — que molda a forma como se vive o dia. Depois, o tempo: não o cronológico, mas o vivido. Tal como em Portugal, há uma resistência subtil à pressa, uma valorização do momento, da conversa que se prolonga, da refeição que não se apressa.

Há também uma cultura profundamente relacional. Tal como nós, os andaluzes vivem para o encontro: a mesa cheia, a rua como extensão da casa, o toque, o riso alto, a proximidade. Não há frieza institucional, há humanidade.


E depois, a alma. O flamenco, tal como o fado, não se explica... sente-se. Ambos nascem de histórias profundas, de dor, de amor, de identidade. São expressões diferentes da mesma intensidade emocional que define o sul da Europa e, em particular, esta nossa faixa ibérica.

Mas é nas diferenças que a viagem se torna ainda mais interessante.

Espanha (e particularmente a Andaluzia) vive com uma extroversão que Portugal, muitas vezes, contém. Onde o português observa, o espanhol expressa. Onde nós filtramos, eles libertam. Há uma teatralidade na comunicação, uma energia mais expansiva, uma presença mais afirmada.

Também na forma de celebrar a vida há nuances. Em Portugal, celebramos com profundidade; em Espanha, com intensidade. 

E talvez a maior diferença esteja na relação com a identidade. O português carrega história com alguma nostalgia; o espanhol, sobretudo no sul, parece carregá-la com orgulho vibrante e visível, quase performativo.

Mas nenhuma destas diferenças afasta. Pelo contrário, aproxima.

Porque são diferenças complementares, não opostas.


A Andaluzia não nos desafia, acolhe-nos. Não nos confronta,  reconhece-nos. E, de forma quase inesperada, obriga-nos a olhar para nós próprios com mais clareza.

Talvez o velho ditado nunca tenha sido sobre Espanha.

Talvez tenha sido sobre medo. Sobre proteção. Sobre uma necessidade histórica de afirmação.

Hoje, atravessar a fronteira é um ato simples mas também simbólico. É perceber que identidade não se perde no contacto; transforma-se, enriquece-se, cresce.


E talvez, no fim desta viagem, a frase precise mesmo de ser reescrita.

Não como negação, mas como evolução.

Porque de Espanha… vêm bons ventos, sim.

E, no sul, vêm até com cheiro a casa.

Para já, estou quase a chegar à Andaluzia... Sul de Espanha. E vou contar tudo!



Pedro Ramos


Comentários


©2024 Revista do Villa    -    Direitos Reservados

Política de Privacidade

bottom of page