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LUSO-BRASILEIRA

REVISTA DO VILLA

Luso-Brasileira

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Chefe, líder ou alguém que sabe mandar?


Se há um tema em que Portugal e Brasil se revelam sem maquilhagem, é a liderança.


Porque liderar, nos dois lados do Atlântico, não é só decidir.

É ser lido, aceite, testado, respeitado…ou, simplesmente, ignorado.

E é aqui que a coisa fica interessante: a mesma palavra descreve comportamentos que, na prática, nem sempre se parecem muito.


Em Portugal, a liderança tende a nascer da competência percebida, da consistência e da estrutura.

O líder é frequentemente alguém que demonstra domínio, rigor e capacidade de sustentar decisões com lógica.

Não precisa de ser carismático o tempo todo; precisa, acima de tudo, de ser sólido e consistente.


No Brasil, a liderança tende a ser mais relacional. O líder precisa de inspirar proximidade, mobilizar energia, criar confiança e fazer com que as pessoas queiram seguir — e não apenas que entendam qual é a melhor direcção.

A autoridade existe, claro, mas muitas vezes só funciona bem quando vem acompanhada de presença física.

E é precisamente aí que muitos líderes falham quando atravessam o Atlântico.


Um líder português no Brasil pode parecer demasiado frio, técnico ou distante.

Pode acertar no plano e falhar na ligação. Um líder brasileiro em Portugal pode parecer excessivamente informal, rápido demais ou pouco claro na delimitação de papéis. Pode acertar na energia e falhar na estrutura.


Nas organizações, isso não é detalhe. É performance.

Porque equipas não seguem apenas quem manda.

Seguem quem traduz o mundo de forma convincente.

E a tradução muda muito de cultura para cultura.

Em Portugal, a legitimidade vem, muitas vezes, de “saber fazer”.

No Brasil, vem, muitas vezes, de “fazer com os outros”.


Isso explica por que razão alguns líderes portugueses são vistos como fortes, mas pouco próximos, e alguns líderes brasileiros como próximos, mas pouco consistentes.

Um excesso de contenção pode travar a adesão. Um excesso de informalidade pode diluir a autoridade.

E, no meio, ficam as equipas a tentar perceber o que realmente se espera delas.


A provocação é esta: muita gente confunde liderança com estilo pessoal.

Não é. Liderança é adaptação com intenção.

Num contexto português, liderar pode exigir mais clareza, mais estabilidade e menos ambiguidade.

Num contexto brasileiro, pode exigir mais presença, mais escuta e maior capacidade de gerar movimento.

O erro é achar que um bom líder serve igual em qualquer lado.

Não serve. Serve se souber ler o contexto e não apenas repetir o seu próprio reflexo ao espelho.


Há ainda uma nuance decisiva nas organizações: a liderança portuguesa tende a ser mais hierárquica na forma como organiza a responsabilidade; a brasileira tende a ser mais circular na forma como constrói adesão.

Num caso, a equipa espera direcção.

No outro, espera envolvimento.


O resultado? Muitos líderes chegam com a convicção de que estão a ser claros e descobrem, tarde demais, que estavam apenas a usar uma linguagem errada.


Talvez seja esse o verdadeiro teste da liderança entre Portugal e Brasil: não saber quem lidera melhor, mas perceber quem consegue liderar sem impor o seu próprio código como se fosse universal.

Porque liderar, no fundo, não é ser seguido por obrigação.


É conseguir que os outros se movam com vontade e, sobretudo, com sentido.



Pedro Ramos


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