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LUSO-BRASILEIRA

REVISTA DO VILLA

Luso-Brasileira

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Artigo 3- Confiança: dá-se de início ou conquista-se com o tempo?

Se há palavra que todos dizem valorizar - tanto em Portugal como no Brasil, nas organizações, nos discursos de liderança - é “confiança”. 



O problema é que raramente estamos a falar da mesma coisa. 

Em Portugal, a confiança constrói-se devagar. É quase artesanal. Observa-se, testa-se, valida-se. A relação vai sendo consolidada ao longo do tempo, com consistência, com provas dadas, com comportamentos previsíveis. Confiar depressa demais não é virtude, pode ser ingenuidade. 


No Brasil, a lógica é frequentemente inversa: a confiança começa alta. Dá-se o benefício da dúvida. Abre-se espaço, cria-se proximidade, estabelece-se uma base relacional que depois, sim, pode ser reforçada ou quebrada. 

Confiar rapidamente não é ingenuidade. É abertura. 


E é aqui que começa o desencontro silencioso. 

O português entra numa relação profissional com cautela. O brasileiro entra com proximidade. O português observa antes de se expor. O brasileiro expõe-se para acelerar a relação. Um protege. O outro investe. 

E ambos, muitas vezes, desconfiam do comportamento do outro. 

Para o português, esta abertura inicial pode parecer excessiva, pouco criteriosa, até arriscada. “Confia em toda a gente?” - pergunta, ainda que não o diga em voz alta. Para o brasileiro, a reserva portuguesa pode soar a distância, frieza ou falta de interesse. “É sempre assim tão fechado?” - questiona, também em silêncio. 


Nas organizações, isto não é apenas um traço cultural interessante. É um fator crítico de funcionamento. 

Equipas portuguesas tendem a construir confiança através de consistência operacional: cumprir prazos, entregar qualidade, manter postura. A relação vem depois como consequência. Equipas brasileiras constroem confiança através da relação desde o início: proximidade, disponibilidade, informalidade que abre portas para colaboração mais fluida. 

O problema? Cada lado mede confiança com métricas diferentes. 


Um líder português pode achar que ainda “não há confiança suficiente” para delegar. Um líder brasileiro, na mesma situação, pode já estar a delegar precisamente para construir essa confiança. Um espera garantias antes de avançar. O outro avança para criar garantias. 

E quando estes modelos se cruzam sem consciência, surgem os ruídos clássicos: portugueses a sentirem precipitação, brasileiros a sentirem bloqueio. 

Mais grave ainda: decisões travadas de um lado e mal interpretadas do outro. 

Porque onde um vê prudência, o outro vê resistência. Onde um vê abertura, o outro vê falta de critério. 


A consequência nas organizações é clara: desalinhamento na velocidade de execução, na autonomia das equipas e na própria leitura de compromisso. 

Mas há uma oportunidade poderosa aqui se houver maturidade para a aproveitar. 

Imagine organizações capazes de combinar a profundidade da confiança construída com o tempo (Portugal) com a velocidade da confiança inicial (Brasil). Relações que começam com abertura, mas não prescindem de validação. Equipas que criam proximidade sem abdicar de rigor. 


Isso não acontece por acaso. 

Exige líderes que compreendam que confiança não é um conceito universal, é um comportamento cultural. 

E que gerir equipas entre Portugal e Brasil implica mais do que alinhar objetivos. Implica alinhar expectativas invisíveis sobre quando, como e porquê confiamos. 


Porque no fim do dia, a pergunta não é “há confiança?” 

É: estamos a falar do mesmo tipo de confiança? 

E enquanto essa resposta for assumida - em vez de discutida - vamos continuar a trabalhar juntos… com níveis de confiança completamente diferentes. 

 

Pedro Ramos

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