A História do empate mais sofrido da História! Ou talvez seja um exagero...
- Pedro Ramos

- 14 de jun.
- 2 min de leitura

A 10 mil metros de altitude, entre Portugal e o Brasil, dei por mim colado ao ecrã a acompanhar um Brasil–Marrocos que parecia mais do que um jogo: era um teste de identidade. Tudo graças à TAP que efetivamente tem uma excelente internet a bordo. O marcador? 1-1. Instável. Inconclusivo. Quase simbólico.
Aterramos em São Paulo e, pela primeira vez na história recente, um avião cheio de gente não queria sair rapidamente... Todos de pé (claro!) mas o pessoal só queria saber o resultado. Eu incluído.
Mas a realidade brasileira trata sempre de acelerar o ritmo: corri pela imigração como quem disputa um lugar no Mundial e comecei a fazer aquilo que qualquer lusófono em território irmão faria: perguntar.
Perguntar a toda a gente com quem me fui cruzando...
“Já acabou?” “Ainda está 1-1?” “Como é que estamos a jogar?”
Funcionários do aeroporto, seguranças, gente que claramente tinha outras prioridades… todos sabiam. Todos opinavam. Porque no Brasil, futebol não é entretenimento. É identidade nacional em direto.
Saio para o táxi. E ali começa o verdadeiro comentário técnico.
O motorista não me perguntou para onde ia. Perguntou-me primeiro: “Você viu o jogo?”
E depois deu-me, em 25 minutos, uma análise mais profunda do que muito painel televisivo:
Falta de identidade
Excesso de individualismo
Nostalgia de um passado que já não volta
E uma frase que me ficou: “Hoje o Brasil joga, mas já não assusta”
Cheguei aos Jardins em menos de 40 minutos. Repito: São Paulo. 40 minutos. Sem trânsito. Um fenómeno mais raro do que qualquer empate 1-1 no primeiro jogo...
A explicação? Simples.
O país parou.
Todo o mundo estava a ver o jogo.
Na receção do hotel, ainda de mochila às costas, assisti aos últimos 10 minutos de prolongamento. Estranhos. Tensos. Quase silenciosos. Como se ninguém soubesse muito bem o que esperar daquela equipa.
E talvez seja esse o verdadeiro empate.
Não foi só o resultado. Foi a sensação.
O Brasil empatou com Marrocos mas, mais do que isso, empatou consigo próprio. Entre aquilo que já foi e aquilo que ainda não conseguiu ser.
E nós, do outro lado do Atlântico, sentimos isso de forma diferente. Porque a lusofonia tem destas coisas: não é só língua, é partilha emocional. É sofrer jogos que não são “nossos” como se fossem.
Assim foi o Brasil. Amanhã (quer dizer, dia 17!) será Portugal. Depois, Cabo Verde.
E no fundo, estamos todos no mesmo campeonato invisível:
à procura de identidade
à procura de consistência
à procura de um lugar no mundo que vá além da história
Porque a verdade é esta e até pode doer um bocadinho:
Já não chega ter talento. Já não chega ter passado. Já não chega ter nome.
É preciso ter Projeto!
E talvez o maior desafio da Lusofonia no futebol (e fora dele) seja exatamente esse: deixar de viver da herança e começar a construir futuro em conjunto.
Porque quando ganhamos, celebramos juntos. Quando perdemos, sofremos juntos. Mas quando empatamos… somos obrigados a pensar.
E talvez isso seja o mais perigoso de tudo.
Ou o mais necessário.
Pedro Ramos

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